ALBORADA - SAYRI ÑAN

1.27.2011

A ROSA DOS INCAS - ENTRE PÉTALAS DE SANGUE E DE PEDRA.

                                              (pendente em forma de gota de rodocrosita)



                                              Conta a lenda Diaguita que... (1)



Um chasqui da região de Andalgalá (2) fez questão de cobrir, ele mesmo, a imensa distância que o separava da Capital, a fim de entregar, pessoalmente, ao Inca, um presente. Depois de três longos dias e noites, alcançou as últimas pedras da estrada que levava à morada do Filho do Sol. Cansado, feliz e emocionado, apresentou ao Inca as pétalas cor de sangue de uma rosa, petrificada, que levava consigo, como dádiva...

'Certo dia, há muito tempo atrás, um destemido guerreiro inca decidiu, ousadamente, quebrando todas as regras do Tahuantinsuyo, adentrar o templo das Virgens do Sol, para espiar. Ao ver uma delas, apaixonou-se, sendo, por ela, correspondido. Do amor impossível, que os dois não puderam evitar, ela conceberia uma criança e, então, resolveram fugir, juntos, para o sul.
O Inca colocou grupos armados para persegui-los mas, jamais logrou encontrá-los. O tempo passou e tiveram muitos filhos, porém, eternamente amaldiçoados pela transgressão que haviam cometido. Quando ela morreu, sepultaram-na no topo da montanha e ele, não suportando a solidão, morreu logo depois...'

Certa tarde, o chasqui, encontrando sua tumba, ficou impressionado ao ver que desabrochava, em pétalas de sangue, a pedra que a cobria. Ele, então, arrancou uma das rosas para presentear o Inca. Este, aceitando a rosa de rodocrocita que lhe oferecia o chasqui, emocionou-se, de tal modo, que perdoou o amor dos amantes fugitivos e, a partir de então, todas as princesas passaram a usar pedaços da pedra como símbolo de paz, perdão e profundo amor.



Esta é uma lenda diaguita. O povo diaguita ocupou o território da atual província de Catamarca, La Rioja, Santiago del Estero e Tucumán (Argentina).
  





A pedra, é a Rodocrocita. Os Incas, que a chamaram de "Rosa Inca", acreditavam que a rodocrosita era o sangue de seus antigos reis e rainhas que fora transformado em pedra.







Rodocrosita é a Pedra Nacional da Argentina, também chamada "piedra del inca". 
A mineralização é de origem vulcânica, localizada em uma cratera, constituída por riolita, nas SIERRAS CAPILLITAS, pertencente ao Nevado de Aconquija, na província de Catamarca, na Argentina, a 3.200 metros acima do nível o mar.
A região de Catamarca produz estalactites de rodocrosita que são únicas em sua coloração. Ao fazer cortes transversais, pode-se ter faixas concêntricas de luz e sombra, sempre brincando com os tons.






No noroeste argentino, nos Vales Calchaquies, os diaguitas desenvolveram uma cultura rica. Resistiram, por mais de cem anos, ao avanço espanhol: guerras Calchaquies, nas quais se destacaram os líderes Kipildor (Quipildor), Viltipoco (1561), Chalemin, Juan Calchaqui, Koronhuila ( chamado pelos espanhóis de Coronilla).

Existem umas 62.000 pessoas que falam espanhol, na província argentina de Catamarca, Salta, Santiago del Estero, La Rioja e extremo noroeste de Tucumán que, em 2001, se consideravam pertencentes a esse grupo étnico. No entanto, os diaguitas foram extintos, como parte, é claro, da invasão espanhola em território americano. Trouxeram a guerra, a fome, as doenças e, por último, a mestiçagem. 

No momento da chegada espanhola, os diaguitas estavam incorporados ao Tahuantinsuyo, perfeitamente adaptados; tendo alcançado um alto nível na exploração agrícola e na criação de lhamas. Fabricavam adornos de prata e cobre e eram mestres na arte da cerâmica.






A música diaguita pode ser conhecida através de estudos arqueológicos. Nos cemitérios foram encontrados instrumentos musicaiss, tais como a flauta andina de quatro vozes feita de pedra - provavelmente, essas flautas eram populares e tenham sido, também, fabricadas de materiais mais leves, de madeira ou bambú. Também foram encontrados cornetas, apitos de pedra, com um furo lateral, que emite um som agudo, dependendo de estar tampado, ou não, o orifício. Pelos instrumentos encontrados, pode-se apurar que sua música tinha tom militar.



(pallo de lluvia - inicialmente idealizado para atrair a chuva em época de seca e colheita; é feito de tronco de cacto e reproduz um som de chuva que, dependendo do movimento das mãos e do tamanho do instrumento, vai desde o som de um chuvisco ao de uma tormenta)


Viviam em casas de pedra com telhados de palha. Eram bravos guerreiros que, antes de se incorporar ao Tahuantinsuyo, haviam lutado com os Incas; combateram os espanhóis, ferrenhamente, e suas armas típicas eram o arco e a flecha - combatiam a pé. Em tempos de guerra, os diaguitas habitavam aldeias fortificadas ou "pukara", localizadas em lugares elevados e de difícil acesso; fáceis de se defender e apropriados para lançar objetos, desde o alto, nos que os atacavam. Esses lugares eram construídos com muralhas de pedra e, algumas vezes, com entradas de madeira. Em tempos de paz, suas casas eram construídas com materiais vegetais e os terrenos divididos com pircas (3).



A economia diaguita baseava-se na agricultura e criação de lhamas, úteis no transporte da carga; completando-a com caça a aves e pequenos animais e o comércio entre outros povos, principalmente os povos litorânios, dos quais obtinham peixes, mariscos, conchas, etc. Cultivavam o milho, abóbora, batata, quínua... Com os povos do interior, faziam intercâmbio de metais, coca e alguns alimentos vegetais.




As características geográficas da região que habitavam os diaguitas corresponde aos "Valles Transversales", formados pelas cadeias montanhosas que se desprendem da Cordilheira dos Andes, interrompendo a planície interior. A vegetação se compõe de bosques, alfarrobeiras; a fauna, entre outros, raposas e perdizes.


Todas estas culturas foram de alto desempenho. Além das atividades que realizavam, dedicavam-se, muito, ao pastoreio do rebanho de lhamas, que desenvolveram a partir da domesticação dos animais. Quase durante todo o ano os animais alimentavam-se nas cercanias dos vales mas, no verão, os rebanhos eram levados aos ricos pastos da Cordilheira.


Homens e mulheres eram de estatura bem baixa, de cor bronzeada clara. Praticavam a deformação craniana, prática comum entre eles. Adoravam o Sol. Possuíam sacerdotes, magos e feiticeiros. Acreditavam na imortalidade da alma.
(1) também chamados Calchaquies
(2) município da Argentina localizado na província de Catamarca
(3) muros de pedra seca, típico dos Andes





               (ARGENTINA, ÚLTIMO RAIO DE SOL DO GRANDE TAHUANTINSUYO)