12.20.2020

ENDÊMICAS DE CAJAMARCA















 Uma lufada veio repentinamente empurrando a grama alta, levantando as abundantes ramificações rasteiras dos pés de amora silvestre (1) agrupados a quase três mil metros de altura. Uma breve lufada mais quente, alisando suas folhas verde-escuras, ásperas, empurrando-as com força, deixando, temporariamente, à mostra o lado de trás dessas folhas compostas de três folíolos cobertos de pelos tão pequenos e densos que as deixam esbranquiçadas. Depois, com mais força ainda, lança essas estruturas vegetais elípticas, bordas serreadas, de bases arredondadas com pontas afiadas, contra os próprios caules espinhosos, quase a ponto de arrancá-las; as nervuras pinadas das folhas, marcadas com veias secundárias retas até a borda, iniciam o movimento de volta, juntando-se, outra vez, como se tentassem esconder seus ramos floridos, essas inflorescências axilares e terminais de vistosas flores hermafroditas que rompem o verde das plantas com cimeiras simples ou compostas, cachos ou panículas e flores solitárias, esbranquiçadas, rosadas, começando já a exibir seus primeiros frutos globosos cor de vinho, que mais tarde hão de torna-se escuros. Na natureza, os arbustos da amora silvestre atingem, apenas, um metro, um metro e meio de altura, com boas colheitas de frutos, nos meses chuvosos (2), porém, para colhê-los, às vezes, é preciso uma foice, devido aos espinhos. 

Quinhentas e dez plantas com propriedades medicinais foram registradas no norte do Peru.  Dois mil quatrocentos e noventa e nove usos diferentes foram registrados para as quinhentas e dez espécies encontradas. As mesmas espécies são frequentemente usadas para várias condições médicas e são aplicadas de maneiras diferentes para a mesma condição: uso tópico como cataplasmas ou banhos, uso oral com a ingestão de extratos vegetais, ou pelo uso de um ¨Seguro¨ que nada mais é do que um frasco cheio de ervas e perfumes servindo de amuleto protetor. A relação homem-natureza  parece ter-se mantido ao longo dos séculos desde a época incaica como se as mesmas lufadas de vento os mantivesse a salvo da destruição mas, as florestas montanhosas podem estar caminhando para uma extinção semelhante à sofrida pelo povo inca.

Vários fatores têm contribuído para a perda e a degradação dessas florestas, submetidas a processos de exploração desmedida, colonização desenfreada, desmatamento, fragmentação, extração de recursos não madeireiros, tudo agravado pelo crescimento populacional, pela desigualdade social e uma falta de planejamento quanto à mineração e, mesmo no tocante à agricultura. O que teria sido inimaginável na época inca, cuja organização funcionava de modo quase perfeito, expõe a vulnerabilidade das florestas montanas, com ênfase para as florestas nubladas cujo ecossistema parece ser afetado de modo especial, pois essas matas não se adaptam muito bem a variações climáticas e todas essas mudanças podem interferir no ciclo e na disponibilidade da água, colocando em risco plantas e animais.





(1) Rubus floribundus kunth (Rosaceae) “zarzamora”.

(2) Novembro e Dezembro.



(continua)



Referências
 1) Kunth, Carl Sigismund (1823) Nova Genera et Species Plantarum 6(25): 173 (ed. fol.), t. 557.








12.10.2020

CAMPO DE AMARANTO (KIWICHA)



De repente, o campo abre-se em uma extensa linha de amarantos 
com seus caules rasteiros, folhas triangulares, 
quebrando, com nuanças nervosas da cor verde-escura,
as linhas vermelhas das espigas 
que pendem pelas mãos do vento, 
flexíveis, cilíndricas, como traços de pintura 
dando vida  à paisagem.








CAMPO DE QUINOA


 







CAMPO DE TARWI (Lupinus Mutabilis)




 Seus caules robustos, eretos, um tanto lenhosos, rompendo as alturas de dois, três, ou quatro mil metros montanha acima, com sua cor púrpura tendendo ao roxo, tocados pelas mãos do vento enquanto os pássaros entoam uma sinfonia de solidão e um sopro de névoa começa a desvanecer-se tocado pela luz do sol.
Esses tremoços silvestres, chamados tarwi, margeiam todos os caminhos, se espalham pelos espaços deixados para trás pela grama nos campos, como pedindo permissão onde outrora deixava-se cultivar com método e alegria.
As folhas, dedilhadas, palmadas, com folíolos de forma oblonga e pequenas folhas estipulares na base do pecíolo. Elípticos ou ampliados até o final,  glabros ou com pelos finos e tênues, pubescentes.
A inflorescência é um aglomerado terminal, com flores verticalmente dispostas. Flores pequenas, como borboletas, tipicamente papilionadas, uma corola com cinco pétalas, um vexilo ou pétala maior, uma quilha, formada por duas pétalas inferiores e duas asas ou pétalas laterais como qualquer flor das papilionáceas.
A quilha envolvendo o pistilo e dez estames monodélicos. 
Em uma única planta de tarwi podem ser contadas mais de mil flores, cujas pétalas variam desde o branco, o creme, o azul, até o roxo mais extremo.
Misture as cores primárias de vermelho e azul na natureza dos tarwis e, na teoria das cores, defina o púrpura como uma cor qualquer não-espectral entre o violeta e o vermelho. Decida-se pintá-los e o púrpura será a cor entre magenta e violeta, com todas as suas matizes e tons; prefira o roxo para não cometer erros.

Talvez há quinhentos anos um último giro pelo império tenha carimbado na memória dessas montanhas a derradeira colheita dos tempos de paz.
Debulhar o tarwi nunca foi tarefa fácil, exige um trabalho pesado e cuidadoso. Mas, a planta seca era batida e ventilada para separar os grãos de suas vagens, com cuidado, para que homens e animais não fossem feridos pelas pontas afiadas dessas mesmas vagens.
Depois o grão colhido e seco era armazenado em recipientes fechados em lugares apropriados para que fosse preservado; para que nunca faltasse esse alimento  e ele pudesse ser semeado, novamente, girando o círculo de sua existência. 
Uma vez que o amadurecimento estivesse completo e quando os frutos adquiriam uma cor amarelada, as plantas eram arrancadas e colocadas em ramos para terminar a secagem. A debulha era um processo que levava muito tempo e mão-de-obra.
O tarwi possui floração diferenciada entre os ramos principais e secundários o que faz com que, hoje em dia, em muitas ocasiões, duas a três colheitas sejam necessárias. Mas, há quinhentos anos, talvez fosse tudo diferente.
Na agricultura tradicional, é costume semear tarwi após um campo de batata, ou de milho, não sei se seria assim na época incaica, talvez mais uma lembrança daqueles que ousam preservar sua cultura. Posso apostar que sim.
Às vezes são cultivados ao redor de campos agrícolas, como cerca para plantações, como proteção para o gado e ovelhas.
Essa planta anual, às vezes mais alta que uma pessoa, de raízes curtas mas firmes, de flores que variam de cor, indo do azul ao roxo mais explícito; de flores que pendem das folhas para atrair insetos polinizadores, exalando um perfume semelhante ao mel. 

Na Serra, aqui e ali, urtigas. Algumas são verde-escuras e de caules e folhas crescidos; outras, menores, opostas em tudo às primeiras, de cor verde-clara e de folhas pequenas, crespas, quase redondas, de pelugem mais espinhosa que aquelas.
O resto delas são urtigas mortas, que já não picam quem as toca. Mas os nativos sabem como extrair remédio de suas memórias.
Lá embaixo, um pouco mais planície do que serra, os amarantos  vermelhos, brancos, lembrando os açucarados torrões de Guamanga, quem sabe não seja este o gosto do passado que permanece na lembrança...
No mais, é um atropelamento de espécies rivalizando beldroegas em flor; amarelinhas, de tão abundantes deixam ampliar a cor pelos campos verdejantes, esverdeados no desenho dos tufos.
Já estou me perdendo na Botânica, como um estudioso à procura de descobertas fora dos livros.










12.09.2020

 













BAÑOS DEL INCA (TERMAS DO INCA)













Em maio de 1887, o médico alemão Ernest W. Middendorf,  dedicado aos estudos arqueológicos e linguísticos, permaneceu oito dias em Cajamarca. Descreveu a cidade e seus monumentos pré-hispânicos, incluindo a estrada que leva de Cajamarca às Termas Incas (Baños del Inca). Reconhecendo-a como obra pré-hispânica, observou: 

“A estrada para as termas passa por um vale em aterro pavimentado, obra que os Incas construíram, pois durante a estação das chuvas o solo fica lamacento e a estrada não seria transitável se não tivesse sido elevada e artificialmente afirmada ”.








 





 




 

DAS LEIS NO TAHUANTINSUYO







“Não se constata, ou eles o negam, que tenham punido algum dos Incas de sangue real, pelo menos em público: os índios diziam que nunca cometeram crime que merecesse punição pública ou exemplar, por causa da doutrina de seus pais e do exemplo dos mais velhos e da voz comum de que eram filhos do Sol, nascidos para ensinar e fazer o bem aos outros, os mantinham tão contidos e ajustados, que eram mais um modelo da república do que um escândalo dela; "(Garcilaso)

Para prevenir os males que poderiam nascer em Tahuantinsuyo, os Incas criaram uma lei que ordenava que todas as cidades grandes ou pequenas de seu Império registrassem os vizinhos por decúrias de dez em dez. O decurião, um desses dez comandava os outros nove. Cinco dessas decúrias tinham um decurião superior, que comandava os cinquenta. Duas decúrias de cinquenta tinham outro superior, para as cem. Assim, outro capitão decurião tomava conta de  cinco decúrias de cem, cuidando das quinhentas. Sendo que duas companhias de quinhentos estavam sob um general, que tinha domínio sobre mil - e não mais. Não passavam as decúrias de mil vizinhos.  De maneira que havia decúrias de dez, de cinquenta, de cem, de quinhentos, de mil, com seus decuriões ou cabos de pelotão subordinados uns aos outros, de menores a maiores, até o último e  principal decurião que chamamos de geral. " (Garcilaso)

Além de ter os decuriões de dez, a obrigação de exercer o ofício de procurador para atender as necessidades que se apresentassem aos que estavam sob suas ordens, reportando-as ao governador, ou a qualquer pessoa encarregada de atendê-las, como pedir semente se faltasse para semear ou comer, lã para vestir, reconstruir a casa se ela caísse ou queimasse, ou o que fosse, os decuriões também eram fiscais e acusadores de qualquer delito que algum dos seus cometera, por menor que fosse. Era obrigado a reportar-se ao decurião superior porque, conforme a gravidade do delito, os juízes eram assim, uns superiores aos outros, para que não faltasse quem o castigasse com rapidez. O importante é que não fosse necessário ir com cada delito aos juízes superiores com apelações e destes aos juízes supremos do tribunal. Não só porque a demora da punição poderia produzir mais delitos, mas porque os pleitos civis, por conta dos muitos recursos, provas e falsos testemunhos se perpetuassem e os pobres não fossem desamparados pela justiça, perdendo suas finanças, gastando trinta para cobrar dez. Assim, em cada cidade havia um juiz que sentenciava as ações judiciais que surgiam entre vizinhos. Mas, entre uma província e outra, as pastagens e as fronteiras, o Inca enviava um juiz particular.


O cumprimento não satisfatório da função de advogado incorria em multa e por isso era punido, segundo sua negligência, com mais ou menos rigor. Se deixasse de acusar o delito do súdito, tornava seu o crime, sendo punido por duas culpas, uma por não ter feito bem o seu trabalho e outra pelo crime do outro. Todos os comandantes e súditos tinham fiscais que zelavam por eles, obrigando-os a dar o seu melhor, cumprindo as suas obrigações. Todos tratavam de não fazer o que não devessem, até porque o castigo era rigoroso, a maior parte de morte: não puniam pelo crime cometido, mas por terem violado a lei e rompido com a palavra do Inca, que respeitavam como Deus.
 “E ainda que o ofendido se desviasse da denúncia ou não a tivesse feito, senão que procedesse a justiça de ofício ou pelos meios ordinários dos fiscais ou dos caporais, davam-lhe a pena plena que a lei ordenava para cada crime, de acordo com sua qualidade, ou morte ou açoitamento ou exílio ou outro similar ". (Garcilaso)

Os filhos de famílias também eram punidos pelos delitos que cometiam, como todos os demais, de acordo com a gravidade de sua culpa. Quer fossem travessuras de jovens ou não, eles respeitavam a idade que tinham para remover ou aumentar a pena, de acordo com sua inocência. O pai era severamente punido por não ter ensinado e corrigido o filho desde a infância. Cabia ao decurião acusar o filho de qualquer delito, como o pai, “pelo qual educavam os filhos com tanto cuidado para que não andassem fazendo travessuras e sem-vergonhices nas ruas ou nos campos, que, além da condição natural branda que os índios têm, saíam. "

Garcilaso de la Vega, em seu livro Comentarios Reales, refere-se a Pedro de Cieza de León para falar da justiça dos Incas e da milícia: “E se eles fizessem na comarca do país alguns insultos e latrocínios, eram logo punidos com grande rigor, os senhores incas sendo tão justos nisso que não deixavam de ordenar que o castigo fosse executado, mesmo que fossem seus próprios filhos. "
E falando da própria justiça: “E por conseguinte, se algum dos que iam de um lado para o outro com ele se atrevesse a entrar nas roças ou casas dos índios, mesmo que o estrago que fizessem não fosse grande, ordenava que fosse morto". O que aquele autor diz sem fazer distinção entre incas e não incas, porque suas leis eram gerais para todos.

Os Incas não tiveram pena pecuniária nem confisco de bens. Diziam que punir nas finanças e deixar vivos os delinquentes não era querer tirar os bandidos do Tahuantinsuyo, mas tirar as finanças dos malfeitores e deixá-los livres para fazer outros males piores.

Os curacas que se rebelavam ou cometiam outro delito que merecesse pena de morte eram punidos com muito rigor. 
"E se por acaso algum deles cometia um delito ou fosse culpado de tal forma que merecesse ser privado do domínio que tinha, eles davam e confiavam a chefia a seus filhos ou irmãos e ordenavam que fossem obedecidos por todos", etc. "(Cieza de Léon )

Nunca decompunham os capitães naturais das províncias das quais era o povo que traziam para a guerra, deixando-os com os ofícios, ainda que mestres de campo (1), e davam outros de sangue real por superiores, ficando os capitães muito felizes por servirem como tenentes do Incas.

O juiz não podia arbitrar sobre a pena que a lei ordenava, mas tinha que executá-la inteiramente, sob pena de morte, por infringir o mandamento da lei. Diziam que ao dar ao juiz permissão para arbitrar, diminuíam a majestade da lei, feita pelo Inca de acordo e parecer dos sérios e experientes homens do Conselho. Diziam que faltava essa experiência e gravidade aos juízes privados, que era tornar os juízes venais, abrindo a porta para que lhes comprassem justiça - que ninguém se tornasse legislador, mas sim executor do que a lei mandava, por mais rigorosa que fosse.

“... bem considerado o benefício desse mesmo rigor para a república, poder-se-ia dizer que eram leis de gente prudente que queria erradicar os males da sua república, porque de executar-se a pena da lei  com tal severidade e de amar naturalmente a vida e odiar a morte, passaram a odiar o crime que a causava, e daqui nascia que apenas se oferecia em todo ano delito, que castigarem todo o Império do Inca, pois todo ele,  sendo mil e trezentas léguas de comprimento e tendo uma grande variedade de nações e línguas, era governado pelas mesmas leis e ordenações, como se não fosse mais do que uma única casa. " Garcilaso

O fato de que essas leis foram cumpridas com amor e respeito era que eram consideradas divinas, sendo o seu Inca o filho do Sol e o Sol era o seu Deus, qualquer mandato comum do Inca era um mandamento divino, quanto mais leis particulares ele fazia para o bem comum.


O Sol ordenava que fossem feitas e as revelava a seu filho o Inca, o que tornava o infrator da lei um sacrílego e anátema, embora seu crime não fosse conhecido. Muitas vezes s delinquentes, acusados ​​por sua própria consciência, vinham expor seus pecados ocultos à justiça, pois além de crerem que sua alma estava condenada, eles criam, por muito certo que o mal sobrevinha ao Império por sua causa e por seu pecado, como doenças, mortes e anos ruins ou qualquer outro infortúnio. Eles diziam que queriam apaziguar seu Deus com sua morte para que por causa de seu pecado ele não enviasse mais mal ao mundo.
Quase inteiramente, não houve apelações de um tribunal para outro em qualquer ação judicial, civil ou criminal. Não podendo arbitrar o juiz, a lei que tratava daquele caso era executada na primeira sentença, poucos processos cíveis se apresentavam sobre o que pleitear. Em cada cidade havia um juiz para os casos que ali se apresentassem, o qual era obrigado a cumprir a lei, ouvindo as partes, no prazo de cinco dias. Se aparecesse um caso de maior importância que os ordinários, que exigisse um juiz superior, iam para a cidade 'metropolitana' da tal província para que sentenciassem: em cada "capital" de província havia um governador superior para tudo o que se apresentasse, para que nenhum queixoso precisasse deixar sua cidade ou província para pedir justiça.

“Porque os Reis Incas entenderam bem que aos pobres, pela sua pobreza, não lhes convinha fazer justiça fora da sua localidade ou em muitos tribunais, devido aos gastos que são feitos e aos incómodos que sofrem, que muitas vezes o montante é maior do que aquilo que vão pedir, pelo que deixam perecer a sua justiça, principalmente se pleiteam contra ricos e poderosos, os quais, com a sua força, sufocam a justiça dos pobres ”. (Garcilaso)

Para remediar esses inconvenientes, os juízes não arbitravam, nem havia muitos tribunais, nem os que pleiteavam saíam de suas províncias. Das sentenças que os juízes ordinários proferiram em ações judiciais, faziam uma relação a cada mês (cada lua) aos juízes superiores e aqueles a outros superiores, que se encontravam no tribunal em vários graus, de acordo com a qualidade e seriedade dos negócios, porque em todos os ministérios havia ordem de menores a maiores até os supremos, que eram os presidentes ou vice-reis das quatro partes do Império. Se os juízes inferiores não administrassem ajustiça de forma correta, eles eram severamente punidos.

“A forma de dar esses avisos ao Inca e aos de seu Conselho Supremo era por nós dados em cordões de cores diferentes, que por eles eram entendidos como por cifras. Porque os nós de tais e tais cores diziam os crimes que haviam sido punidos, e certos cordões de cores diferentes presos às cordas mais grossas diziam a pena que havia sido dada e a lei que havia sido executada. E assim se entendiam, porque não tinham letras, ... muitas vezes causou admiração aos Espanhóis verem que seus maiores contadores errem em sua aritmética e que os índios têm tanta certeza nas suas partições e empresas, que, quanto mais difíceis, mais fáceis mostram-se, porque quem as maneja não entende mais nada dia e noite e, portanto, eles são muito hábeis nelas. " (Garcilaso)

“... mandavam buscar os grandes quiposcamayos onde a conta estava expirando e sabiam dar conta das coisas que aconteciam no reino, para que estes pudessem comunicá-las com outros que entre eles, sendo escolhidos por mais retóricos e abundantes de palavras, sabem contar bem tudo do passado, como entre nós são contados por romances e poemas; "(Cieza de Léon)

Qualquer dissensão entre duas províncias sobre fronteiras, por exemplo, o Inca enviava um juiz de sangue real, que tentava arranjá-las, e o concerto que era feito era dado por sentença em nome do Inca, que era inviolável por lei, conforme pronunciada pelo mesmo Inca.
“Quando o juiz não conseguia acertar as partes, relatava ao Inca do que havia feito, avisando que era conveniente para cada uma das partes e do que elas dificultavam, o qual dava o Inca  uma sentença como lei, e quando a relação do juiz não lhe satisfazia, mandava suspender o processo, até a primeira visita a ser feita naquele distrito, para que, vendo com seus próprios olhos,o sentenciasse ele mesmo. Isto tinham os vassalos por grande misericórdia e favor do Inca."(Garcilaso)

“E como sempre os Incas fizessem boas obras para aqueles que estavam postos em seu domínio sem permitir que eles fossem injustiçados ou que lhes fossem cobrados muitos tributos ou outros ultrajes feitos a eles, sem os quais, muitos que tinham províncias estéreis e que nelas no passado tinham vivido com necessidade, eles lhes davam tal ordem que as tornavam férteis e abundantes, fornecendo-lhes o que era necessário; e em outras onde havia falta de roupas porque não tinham gado, ordenava que se lhes dessem com grande liberalidade. Que fique bem entendido que assim como esses senhores sabiam servisse dos seus e que lhes pagassem impostos, assim eles souberam preservar as terras e  trazê-los de toscos a muito educados e de desprovidos a que nada lhes faltasse.” (Cieza de Léon)


A cada homem davam um topo (2), que é um pedaço de terra, para semear. Um topo de terra era suficiente para sustentar um plebeu casado e sem filhos. Para cada filho homem que tivessem, outro topo, para as filhas, metade. Quando o filho do sexo masculino se casasse, o pai dava-lhe a parte da terra que recebera para a sua alimentação, pois ao mandá-lo embora de casa não poderia ficar com ela. As filhas não tiravam sua parte quando se casavam porque não se as haviam dado por dote,mas para alimentos porque não contavam com as mulheres depois de casadas mas enquanto não tinham quem as sustentasse, como era antes do casamento e depois de viúvas.
Os pais ficavam com as terras se precisassem, mas quase sempre as devolviam ao conselho, porque ninguém podia vendê-las ou comprá-las, para que fossem dadas a outros ao nascer.
Aos nobres, como os curacas, senhores de vassalos, davam as terras de acordo com a família que possuíssem: mulheres e filhos, concubinas, servos e servas. Aos Incas, de sangue real, onde quer que vivessem, davam o melhor da terra; "E isso sem a parte comum que todos eles tinham no patrimônio do Rei e do Sol, como filhos deste e irmãos do primeiro."




(1) posto militar

(2) Eles também chamam de topo uma légua de estrada, e fazem disso um verbo e significa medir, e eles chamam topo qualquer medida de água ou vinho ou qualquer outro licor, e os grandes alfinetes com os quais as mulheres prendem suas roupas quando se vestem . A medida das sementes tem outro nome.




BIBLIOGRAFIA

Garcilaso de la Vega, Comentarios Reales.
Pedro Cieza de Léon, Segunda Parte de la Crónica del Peru, Del Señorío de los Incas.










12.05.2020








 


Nas serenas noites de verão a lua reina, poderosamente, na escuridão entre as estrelas, iluminando adoravelmente cada recôndito com centelhas de fantasia, até que o sol volte a ofuscar seu reinado de brilhos com um manto de realidade. Os vales despertam sob as bênçãos de rios mais ou menos caudalosos, riachos barulhentos e lagoas serenas, portais de mundos que vão diminuindo de tamanho até tornarem-se micromundos impossíveis de serem percebidos. O sol começa a colaborar para que a temperatura esquente, rapidamente, na altura dos riachos no fundo dos vales, mas a natureza, em constante reboliço, alterna temperaturas extremas nesses vales e montanhas de verdes extremados, altitudes em conflito e picos nevados. Dia, noite, sol e sombra, ventos excessivos espalhando a calma do tempo com seus dedos nervosos de ar. Variações constantes, tempestades frequentes, chuvas de raios nas terras altas esfacelando tardes ensolaradas, neve e granizo regendo o movimento nas alturas, nos topos remotos de várias altitudes, nos picos branquinhos de neve como açúcar. Às vezes na mesma tarde, no mesmo dia, como revoluções por segundo.

Por vezes um terremoto sacode o âmago da serra, o bastante para deslocar a terra, fazendo-a deslizar, desencadeando desordens.

A Cordilheira dos Andes surgiu como resultado de um choque ocorrido entre duas placas tectônicas há milhões de anos, quando a placa de Nazca moveu-se na direção da placa sul-americana e, sendo mais densa, entrou por baixo da outra, causando a elevação do terreno sobre a zona de choque, dando origem às elevadas montanhas que hoje formam a cordilheira.

Se baixássemos os desfiladeiros profundos ao nível da planície,

Se as altas montanhas caíssem ou fossem transportadas a admiráveis distâncias.

Se os lagos rompessem uma saída repentina formando um rio e a tudo inundassem

como nos tempos antigos, na pré-história, quando o mundo, em convulsões frequentes e intensas debatia-se provocando elevações que fizeram surgir as enormes cordilheiras e grandes depressões e transformações de terreno, e repetidas erupções de vulcões, alguns, nos dias de hoje,  extintos, outros, ativos, como deuses da natureza dormitando e despertando em seus tronos de fogo, lava e cinzas.

A terra andina está em permanente batalha, batendo e levando golpes transformadores, tornando caos em criação, criando, destruindo e recriando, tornando ruínas em ilhas de vida. Assolada pelos elementos, atormentada pelo tempo como um pesadelo mórbido de torturante e repentina beleza. Alturas de tirar o fôlego, ainda hoje assoladas por ventos, tormentas desfeitas contra o corte das alturas, climas rígidos nos topos entre neve ou névoa e isso não é uma opção.

Terrenos acidentados de paisagens diferentes que mudam a cada passo nos fazendo sentir gigantes e pequenos, frágeis e terrenos, ávidos de ar e de vida. Simples criaturas cansadas, deitadas sobre a grama onde guanacos pastam; pequenos borrões divinos moldados em animais humanos olhando, estupefatos, o céu de nuvens que mudam tão rápido quanto as paisagens, de onde algumas estrelas ousam brilhar de dia. 

A paisagem é sucessão de quadros que a mente do artista sonha e recria, fazendo com que ela esteja lá, fugidia como as nuvens branquinhas que passam e se transformam, atropelando-se para depois desaparecer no azul intenso do céu. Dizem que depois da mais terrível tempestade o arco-íris é a contínua aliança entre o povo Inca e Deus, desenhado no céu e nas encostas das montanhas mais altas, suavemente pintado em nuanças de cores brilhantes e eternas.

 A grandeza desses montes, dessas montanhas tão altas, dessa Cordilheira erguida na força dos deuses de criação e de destruição. Fantasticamente emoldurada nessa aquarela pálida, ora desbotada à custa de chuvas inesperadas, repentinas aguadas e, quando tudo parece perder cor e morrer num colorido sem forma e único, nos deparamos, olhos extasiados, como um astronauta do futuro admirando o passado, o desenrolar do imenso tapete amarelo das punas acrescentando cor à vegetação rasteira, de gramíneas dispersas em imensas planícies amarelas, amarelas, amarelas, a céu aberto...






12.04.2020


 













As características geográficas tornam Vilcabamba isolada de tudo: limitada pelo rio Urubamba a leste, os altos picos do Cordilheira Vilcabamba a sudeste, o rio Apurimac a sul e oeste, e ao norte pelos rios Cosireni e Alto Urubamba, onde a densa floresta derrama-se sobre a Bacia Amazônica. Região extremamente acidentada, de colinas cobertas de florestas, desfiladeiros profundos, picos nevados e pântanos. A terra plana é rara - trilhas estreitas se retorcem, subindo e descendo, ao longo das encostas com vista privilegiada para os rios e para os vales. Bem acima de dois mil metros de altitude, o ar fica "rarefeito" e as noites são bem frias.  
À medida em que a história desta região foi se revelando,  as ruínas da cidade de Vilcabamba puderam ser encontradas. Os novos relatos e informações disponíveis dos últimos tempos acrescentam fachos de luz à mente na tentativa  de entender os capítulos finais da história de destruição e morte da conquista espanhola nos Andes.

Até instalar-se em Vilcabamba, Manco, a quem Pizarro, em 1533, colocara como Inca depois da morte de Atahualpa, viveu dois anos antes de rebelar-se contra os espanhóis, em 1536, sitiando Cusco e ameaçando Lima, instalando-se no Vale de Yucay, ao norte de Cusco.
A noroeste desse vale, havia a fortificação de Ollantaytambo e ele, ao mudar-se para ela, logo se deu conta de que a proximidade com a cidade de Cusco e com a cavalaria espanhola os tornava vulneráveis demais. Após uma tentativa frustrada nas florestas a leste do Lago Titicaca, as forças de Manco rumaram pela estrada Inca, atravessaram o Passo Panticolla, atingindo a região do Urubamba, atravessando a Ponte Chuquichaca, principal entrada da região de Vilcabamba, que passou a ser a entrada principal do Império Inca naquele momento.
Cruzaram a ponte, seguindo para oeste, ao longo do rio Vitcos (1) chegando à cidade fortificada de mesmo nome.
Do alto de uma altura de dois mil oitocentos e cinquenta metros, Vitcos proporcionava uma visão plena do vale do rio Vitcos e da cidade de Pucyura.
Manco e seus conselheiros consideraram que esse era um lugar inacessível e que ali estariam seguros.
Talvez fosse, se tivessem destruído a Ponte Chuquichaca, logo depois de a atravessarem.Talvez. Pelo menos, assim, o ¨conquistador¨ Rodrigo Orgonez não os teria seguido até Vitcos.
Enquanto Manco levava a vida de um fugitivo, seu meio-irmão Paullu era saudado como o novo Inca pelos espanhóis em Cuzco.



(1)hoje Vilcabamba










 



 

 







12.03.2020

POEMA DA NATUREZA INCA















 

No caminho de Cajamarca, a cordilheira 
serrilhada de contornos contra o céu  azul-sereno 
desenhando tufos e arbustos, ervas e canteiros, 
gramíneas recortando de verde a cor das rochas, 
espalhando flores pequeninas em pastos amarelados de outono.
Com o ar soprando o orvalho e a garoa constante 
derramando-se nas encostas em primaveras e verões apaixonantes 
retratados em cores que se sucedem como tinta no vazio
nas mãos de um artista enlouquecido, enamorado e ébrio.

Poema da Natureza Inca
by Tania Pavón





QUINHENTAS LÉGUAS DE PÚRPURA ATÉ O NORTE

 





Garcilaso de la Vega no seu livro Comentarios Reales menciona dois Caminhos Principais (Capac Ñan) que existiam ao longo do Tahuantinsuyo, de norte a sul, um através das planícies, ao longo da costa do mar e outro nas montanhas. Como ele mesmo diz, ele os pintou com palavras de outros historiadores e eu tento atualizar a história.
“... um passa pelas planícies, que é a costa do mar, e o outro pela serra, que é o interior, do qual os historiadores falam com grande valor, mas a obra foi tão grande isso ultrapassa qualquer pintura que possa ser feita dela; e porque não posso pintá-los tão bem como eles pintaram, direi o que cada um deles diz, ao pé da letra ”. (Garcilaso)

Quando Huayna Capac saiu da cidade de Cuzco com seu exército para conquistar a província de Quito, a cerca de quinhentas léguas de distância, teve grande dificuldade na passagem pela serra, por causa das estradas precárias e dos grandes barrancos e penhascos que existiam. Então pareceu apropriado construir uma nova estrada, pela qual ele pudesse retornar de sua conquista vitoriosa. Por ter dominado a província, ordenou uma estrada através de toda a Cordilheira dos Andes, muito larga e plana, quebrando e igualando as pedras quando necessário, igualando e levantando as ravinas de alvenaria. "... tanto que às vezes  subiam a obra de quinze a vinte estados de profundidade, e assim segue esse caminho pelo espaço de quinhentas léguas." (Agustín de Zárate, livro I, capítulo XIII)

Dizem que o caminho estava totalmente plano, quando acabou mas depois com as guerras e a invasão espanhola, em muitas partes, a alvenaria dessas passagens foi rompida, impedindo quem quisesse passar por elas, para que não pudessem passar e agora nos  surpreendemos com o que resta dessas estradas, mas você pode imaginar como eram maravilhosas há quinhentos anos.
Huayna Capac amou tanto a província de Quito, que havia conquistado, que mandara construir outra estrada até o norte, através das planícies, que se completava com outras estradas nelas. Aquela estrada era tão difícil quanto a das montanhas, pois passava por todos os vales onde se alcançava a brisa fresca dos rios e a sombra das árvores, ocupavam geralmente uma légua de comprimento; construíram uma estrada que tinha quase doze metros de largura, com muitas paredes grossas de uma extremidade e da outra e quatro ou cinco paredes acima. Ao sair do vale, a mesma estrada seguia pela areia, onde estava rebaixada, com paus e estacas por cordas, para que ninguém perdesse o seu rumo, nem entortasse os paus. Essa estrada tinha as mesmas quinhentas léguas que a outra. “... e embora as varas dos bancos de areia estejam quebradas em muitas partes, pois os espanhóis, em tempos de guerra e de paz, tenham feito fogo com elas, mas as paredes dos vales estão nos dias de hoje na maior parte inteiras, por onde a grandeza da construção pode ser julgada; " (Zárate)


Assim, de acordo com Zarate, Huayna Capac foi por uma estrada e voltou pela outra, e ao longo do caminho, por onde ele tinha que passar, a estrada sempre esteve coberta, espalhada com flores e ramalhetes de odor muito suave.

Pedro de Cieza de Leon, falando a mesma estrada que atravessa as montanhas, disse: “De Ipiales caminha-se até chegar a uma pequena província, que se chama Guaca, e antes de lá chegar avista-se o caminho dos Incas. ...... tanto pelos amplos alojamentos e armazéns que havia em todo ele, como também porque foi feito com grande dificuldade, devido às serras tão rústicas e acidentadas, que o torna admirável de ver. ”
“... darei a notícia do grande caminho que os Incas mandaram fazer por metade deles, o qual, embora em muitos lugares já esteja arruinado e desfeito, da mostras do quão grande foi e do poder daqueles que o mandaram fazer. Guainacapa e Topainga Yupangue, seu pai, foram, segundo dizem os índios, os que desceram por todo o litoral, visitando os vales e províncias dos Yungas, embora alguns deles também contassem que Inga Yupangue, avô de Guainacapa e pai de Topa Inca, foi o primeiro que avistou a costa e percorreu as planícies desta. ”(Cieza de Léon)


Assim, os chefes e líderes das províncias, por ordem do Inca, nesses vales e no litoral, fizeram um caminho de até quinze pés. De um lado e do outro da estrada, havia um muro muito grande com todo o espaço limpo e sob árvores, e dessas árvores, em muitos lugares, pendendo sobre o caminho, galhos cheios de frutos. Ao longo de todo o caminho, nos bosques, havia muitos tipos de pássaros, papagaios e outras aves.








“Ao longo deste caminho duraram os muros que iam de um lado ao outro dele, até que os índios, com a multidão de areia, não puderam erguer um alicerce. De onde, para que não errassem e se conhecesse a grandeza daquele que mandava, fincavam largas e compridas varas, como vigas, de trecho em trecho. E assim como se tomava o cuidado de limpar a estrada através dos vales e renovar as paredes se estivessem em ruínas e gastas, eles tinham que ver se algum forcado ou uma vara longa, dos que estavam nas áreas arenosas, caísse com o vento, para recolocá-lo. De maneira que essa estrada, é verdade, era coisa grande, embora não fosse tão trabalhoso como a da montanha. " (Cieza de Léon)

Algumas fortalezas e templos do Sol ficavam nestes vales ...

“Desta cidade de Cuzco saem dois caminhos ou estradas reais de duas mil milhas (3.200 quilômetros) de comprimento, uma das quais guiada pelas planícies e a outra pelos picos das montanhas, de modo que para torná-las como estão foi necessário elevar os vales, cortar as pedras e rochas vivas e humilhar a altura das montanhas. Elas tinham vinte e cinco pés de largura. " (Botero Benes)


Todas aquelas narrativas que os historiadores fizeram dessas estradas, não podem bastar para nos fazer imaginar a grandeza da obra, pois essas distâncias eram tão grandes e tinham inclinações de duas, três, quatro léguas e mais de subida. A estrada de montanha, como diz Garcilaso, “nos picos mais altos, de onde se descobriram mais terrenos, algumas praças altas, de um lado ou do outro da estrada, com os seus degraus de pedra para as subir até elas, onde quem carregava as liteiras pudessem descansar e o Inca se deleitasse de olhar por toda parte, por aquelas montanhas altas e baixas, cobertas de neve e por nevar, o que certamente é uma vista muito bonita, porque de algumas partes, dependendo da altura das montanhas, por onde a estrada vai, se descobrem cinquenta, sessenta, oitenta e cem léguas de terra, onde você pode ver cadeias de montanhas tão longas que parecem chegar ao céu, e, pelo contrário, vales e ravinas tão profundas que parecem terminar no centro da terra . "(Garcilaso)


Restava apenas o que o tempo, as guerras e a invasão espanhola não puderam consumir. Na época descrita por Garcilaso, não muito depois de os espanhóis terem feito sua ocupação dos Andes, já havia ocorrido significativas mudanças em toda essa grande obra.

“Só no caminho para a planície, nos desertos dos bancos de areia, que são muito extensos, onde também há morros altos e baixos de areia, existem altos madeiros fincados em alguns trechos, que de um pode-se ver o outro e sirvam de guia para que os caminhantes não se percam, porque o rasto da estrada se perde com o movimento que a areia faz com o vento, porque o cobre e o cega; e não é seguro guiar-se pelos morros de areia, porque também eles passam e deslocam-se de um lado para o outro, se o vento for forte; de ​​modo que as vigas fincadas ao longo da estrada são muito necessárias, para nortear os viajantes; e por isso se têm sustentado, porque não poderiam passar sem elas ”. (Garcilaso)

Ainda hoje, quase nada restou de todo esse esplêndido trabalho, para fazer a travessia, pelas encostas deslumbrantes, sob climas e ecossistemas tão variados como os altos Andes e as florestas enevoadas. Parte da Trilha Inca para Machu Picchu, que deve superar dois Passos em grande altitude, o mais alto deles, Huarmihuañusca, de quatro mil e duzentos metros, também conhecido como “Paso de la Mujer Muerta” (Passo da Mulher Morta), podemos sentir que somos levados ao passado, imaginando outra vida, de frente para o Inti Puncu ou "Portão do Sol" para entrar em Machu Picchu. Em todo o percurso nos surpreendemos com a flora e fauna, sonhando que nada tenha mudado quando, entre maio e outubro, quase sem chuva, o clima torna o caminho mais fácil.

Outro trecho muito bonito dessa estrada fica na região de Cajamarca. É um ramal bem preservado da antiga estrada, que ainda conserva parte do pavimento original construído pelos Incas. Apesar de estar a três mil metros, o clima é bom, a paisagem é dominada por tons de verde sucessivos proporcionados por arbustos e árvores, com terrenos cobertos por culturas de batata, trigo, cevada, por pastagens desbotando cor, e gansos. Com um ou outro fazendeiro preparando sua terra no estilo ancestral com uma junta de bois e um arado de madeira. Esse trecho leva, caminhando desde a vila de Combayo,  a uma grande praça com paredes de antigas construções da vila de Cajamarca, onde fica a Necrópole de Combayo - tumbas esculpidas na rocha vulcânica de um antigo centro religioso e cerimonial.


Descendo por entre eucaliptos e arbustos de diferentes tons de verdes quentes e frios, aves e pássaros, nativos, coloridos, alguns tordos, muitos pardais e beija-flores em busca de néctar...

Caminhando pela paisagem natural até o leito do Rio Grande, seguindo a região dos Três Tingos, união de três rios - Grande, Azufre e Paccha - que formam o grande rio Chonta, que desagua no belo vale de Cajamarca.
A última etapa da caminhada pela Trilha Inca na região de Cajamarca vai até o rio Chonta para um mergulho refrescante no rio, ao menos na imaginação. Poucos metros à frente, depois de cruzar o espetacular Cañón del Chicche, fascinante não só por suas formações rochosas, mas também pela rica flora e fauna nativas, onde você se sentirá assolado pelas variedades coloridas de orquídeas e flores de sinos.

O complexo arquitetônico Cumbemayo, localizado a dezessete quilômetros da cidade de Cajamarca, percorrendo rochas gigantescas esculpidas pelos ventos ao longo de milhões de anos, afetam a imaginação com suas formas particulares ... Cajamarca é famosa pela obra de engenharia hidráulica que seus antigos habitantes construíram: o Canal de Cumbemayo. Além disso, o santuário, localizado em uma forma caprichosa de rocha, onde antigos habitantes faziam as cerimônias e ritos religiosos. O ponto de partida do percurso pelo caminho ancestral, a Trilha Inca, que liga Cajamarca ao seu antigo Coyor, hoje San Nicolás, tem cerca de onze quilômetros e meio de estrada Cajamarca-San Marcos. Coyor foi o último bastião de resistência do povo Caxa, antes da invasão do Império Inca. O antigo caminho segue de San Nicolás à aldeia de Namora, com as suas casas de adobe e telhados de duas inclinações cobertos de telhas.
Hoje em dia, perto dali há uma famosa fazenda, lar de cavalos e vicunhas que pastam livremente pelos arredores. A variação da vegetação do lugar é atraente, com grandes queñuales (Polylepis) que parecem envolver as casas dispersas da população. Gradualmente, seguindo o percurso pelas tardes ensolaradas da região, seguindo as margens do rio Chonta até Llacanora, mais perto das cachoeiras deste distrito.

No passado, quando a primavera tecia seu tapete vermelho-vivo nas montanhas andinas, cobrindo as encostas com as árvores do Notro (embothrium coccineum), como chamas de fogo ao longo dos caminhos...

O Capac Nan, principal estrada para o norte, transformava a paisagem em uma cor repleta de nuanças de roxo e violeta, com as belas flores de Tibouchina laxa  espalhando-se pelas encostas da região de Cajamarca, cobrindo suas matas serranas... 

... e que insistem, que resistem e que persistem até agora, tentando nos fazer lembrar que, como seus caminhos, os Incas não estão extintos ...


                 Notro (embothrium coccineum) 





Bibliografia

1)Garcilaso de la Vega, Comentarios Reales.

2)Agustín de Zárate, Historia del descubrimiento y conquista del Perú.

3)Pedro Cieza de Léon, La Crónica del Peru.

4)Juan Botero Benes, Relaciones.