ALBORADA - SAYRI ÑAN

1.25.2011

QUENA - A VOZ DA MONTANHA, QUE CHAMA...




Quena é a flauta dos Andes, construída de madeira ou bambú que, antigamente, era feita de osso, argila ou metal. A típica quena dos incas possuía de vinte centímetros de comprimento, feita do osso da pata da lhama. Possuem seis furos em linha reta, na parte da frente.


Conta a lenda que...


Nos tempos antigos as Virgens do Sol utilizavam lã de vicunha para tecer os mantos sagrados e íam, juntas, aos mercados, para escolher os mais bonitos novelos. Em uma dessas visitas, foram acompanhadas pela filha de um grande curaca (1). Andavam por um caminho que se alongava em meio a pequenas colinas até chegar ao seu destino. De repente, do alto, veio o som de uma flauta que só a filha do curaca parecia ouvir. Deteve-se ela e, então, como em um sonho, caminhou, lentamente, até aquele que tocava a flauta misteriosa. Era um pastor de lhamas que, enquanto apascentava os animais, tocava seu instrumento.


Apaixonaram-se, enquanto em silêncio, se olharam...


No entanto, a diferença social que havia entre os dois era uma barreira a esse amor e, encontravam-se com dificuldade; só se viam quando ele a chamava com sua flauta, tocando a mesma canção que ela escutara a primeira vez.
Uma tarde ela não veio. Em vão, o pastor tocou, muitas vezes, a flauta, chamando-a.


O crepúsculo trouxe a noite quando ele, sem poder suportar mais, desceu até o povoado para averiguar a causa de sua ausência. A aldeia estava em festa e a moça que ele amava iria se casar com o filho de um curaca vizinho, inimigo do pai da garota. O noivo chegara com um séquito e muitos presentes. Os moradores olhavam, admirados, tanta riqueza, porém, com indiferença.
Quando a buscaram, para que recebesse o noivo, não a encontraram. Havia desaparecido como que tragada pela terra. Em vão, a buscaram. Pensou-se até que o pai não queria casá-la com o filho do inimigo. Houve ameaças e o povo saiu a procurá-la até nas aldeias mais afastadas sem, no entanto, encontrá-la.


Tempos depois acharam-na morta, no lugar onde, sempre, se encontrava com o pastor de lhamas. Passou o tempo  e sua tumba, todas as manhãs, estava coberta de flores do campo. Um dia, porém, a encontraram profanada.


O pastor, enlouquecido, havia tirado, de seus restos mortais, um osso da perna, fugindo para longe. Com o osso fez uma flauta que soava mais doce do que qualquer outra. E, todos os dias, ao entardecer, sentado diante da imensidão das montanhas, tocava sua flauta, como antes, chamando a amada, que não esquecia. Por isso dizem que a quena é tão suave e melancólica, porque nasceu da dor do amor...




 (1) Curaca: oficial do Império Inca, que ocupava a posição de magistrado, cerca de quatro níveis abaixo do Sapa Inca. Os Curacas foram os chefes dos ayllus ( clã da família ).