2.19.2021

FILHOS DO SOL (CAPÍTULO II)







CAPÍTULO II



Antes de nos encontrarmos ao pé dos três cerros, nos encontramos no apartamento de Henri na cidade de Londres. Passamos a noite, e parte da manhã, acordados, conversando sobre o tesouro de Llanganatis.

Tentei argumentar com Henri sobre o que já houve, no passado de Llanganatis, com aqueles que ousaram sonhar com esse tesouro que poderia não passar de uma fata morgana nos sonhos de tolos. Tentei demovê-lo, mais como uma estratégia furada de sentir-me um pouco mais em paz quanto a minha vontade de ir para lá sozinho, com a única pretensão de adquirir conhecimento, como uma espécie de Darwin dos tempos atuais. Minha pretensão morria no esboço de seus sorrisos e eu pensei que qualquer um poderia, facilmente, apaixonar-se por ele, duvidando que alguém tivesse a coragem de confessar diante desse ser especial que ele era, frente a sua terrível capacidade de nos colocar, a todos, cada um de nós, em seu devido lugar.

--E quanto a Brun, George Brun, o especialista em balística, picado por um escorpião? Foi na segunda expedição de Loch. A primeira havia durado trinta e nove dias, trinta e sete de chuvas torrenciais. Mas, a segunda...
--A insistência dos exploradores equivale a de nós, botânicos.
--Eu sei que somos loucos, mas quem não é? Só os pálidos de medo não ousam tentar transformar seus sonhos em realidade.
--Nem todos são loucos, Henri. Nem todos são covardes. Essa é uma definição muito simplista da alma humana.
--Infelizmente, ou felizmente, não sei, a segunda viagem de Loch ao Llanganatis foi a mais cansativa, setenta dias no inferno. Se tudo fosse a contento não estaríamos aqui, agora, e, provavelmente o tesouro estaria em um museu e nos encontraríamos apenas para tomar cerveja e reclamar de nossas esposas megeras e nossos filhos birrentos.
Eu ri muito enquanto o observava tão sério.
--Ah, não, não faríamos nada disso. No máximo uma namorada e iríamos para o Egito em busca de achados arqueológicos.
--Você não entende. Isso é mais sério do que parece. Eu preciso fazer isso. Algo me atrai para aquele lugar. Encontrar o ouro é só uma motivação que eu tento manter preservada. Porque eu não sei o que me move de verdade. É uma coisa de alma.
--Quando foi que isso aconteceu? Quando começou a sentir isso?
--O próprio Loch escorregou em uma ravina, quebrando duas costelas e um de seus soldados foi arrastado para dentro das corredeiras para nunca mais ser visto. Loch, dois soldados e Brun sobreviveram. Por quanto tempo alguém sobrevive depois de ter seus sonhos destruídos e o corpo moído pelas adversidades? Loch ainda viveu para publicar seu livro. Precisava fazer isso. Então, tirou a própria vida. Sozinho em seu mundo gigantesco. O cara era um gigante e agora não passa de uma lenda esquecida. Não quero que aconteça isso comigo. Mas, se acontecer, pelo menos terei morrido pela melhor causa.
--Talvez seja melhor não falarmos mais sobre isso. Vamos esquecer os caras. Estão mortos mesmo.
--Loch escreveu em seu livro: "Tudo em que pisamos, tudo em que agarramos cedeu sob nós." Falava sobre o que aconteceu nessa expedição mas, eu vejo além disso. O que aconteceu estava escrito em sua alma, tudo ruiu dentro dele até não haver mais nada. Escrever aquele livro era tudo o que lhe restava. "Savage and barbarous land of false dreams and broken promises.", ele disse.
--"Terra selvagem e bárbara de sonhos falsos e promessas quebradas."  Vamos nos manter racionais, nós dois.
--Antes dele, o Coronel Brooks e sua esposa Isabella viveram uma tragédia lá que  se derramou para fora como o espumar de um louco. Em sua primeira viagem sofreu um motim. eu posso imaginar o que terá acontecido. Mas, não foi o bastante. Ele voltou levando sua amada esposa. Ele a amava tanto. Eu posso imaginar o que ele estava sentindo.
--Parece que ela não era sua esposa.
--Mas, ele a amava. Aquelas chuvas torrenciais de sempre não deram trégua. De nove a doze meses de chuvas e névoas geladas. Ela adoeceu em plena montanha, bem no meio do nada. Em poucos dias ela morreu. Talvez ele devesse ter morrido junto. Resolveu voltar a Nova Iorque e foi parar num hospício.
--Isso tudo parece gerar muita superstição sobre o lugar, sobre o tesouro.
--Parece que todos, de uma forma ou de outra, são atingidos no coração. Bob Holt, literalmente.
--O geólogo americano.
--Década de sessenta. Não faz tanto tempo assim. Escorregou e caiu sobre um tronco de árvore quebrado e pontiagudo que o acertou diretamente no coração.
--São coinci...
--...dências. Não. Tem algo aí. Algo grande, enorme; e forte, muito forte. Como um polvo gigantesco e seus tentáculos que nos puxam de volta para a morte. E ele sempre vence.
--Você não acha que o tesouro está amaldiçoado!? 
--Não. Nem tudo é para todos. Está lá por um motivo. Está esperando por aquele que deve encontrá-lo.
Eu estou sorrindo ao olhá-lo no olhos.
--E você sabe quem é essa pessoa?
--Eu tenho o direito de ter um palpite.





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2.16.2021

FILHOS DO SOL (CAPÍTULO I)





 CAPÍTULO I


Parei, mais uma vez, para olhar o mapa. Obviamente, as coisas mudaram, pode ser que a paisagem tenha sido alterada de forma significativa porque a vegetação está em contínuo crescimento transformando a flora local. Não se descarta a possibilidade de que raios, nas tempestades, talvez possam causar incêndios, mudando o bioma das florestas, ou dos páramos, mesmo que, depois de algum tempo, tudo pareça natural e preservado. O local do tesouro de Atahualpa pode ter sido perdido para sempre como resultado dos terremotos que ocorrem regularmente nas montanhas densamente arborizadas. 

Encontrar o ouro do resgate de Atahualpa seria a menor de minhas preocupações; na verdade, eu não quero encontrá-lo. A prioridade sempre foi descobrir novas espécies botânicas e a fantástica oportunidade de ter em mãos uma variedade de plantas que eu jamais sonharia encontrar no permanente habitat de concreto da minha cidade. Com o mapa diante de mim e um suspiro, olho para os companheiros de exploração e o cansaço nos olhos deles me faz despertar para o verdadeiro propósito da missão. Minhas prioridades não são relevantes pois, depois de tê-los arrastado para isso com o objetivo de encontrar o tal tesouro, o objeto de nossa concentração deve ser a localização do ponto exato de onde se tem a última, ou única, notícia do ouro; a todo custo, a toda pressa, porque parece que, aqui, o tempo passa mais rápido, as distâncias se alargam e vamos nos tornando mais fracos, nossos itens de sobrevivência diminuem consideravelmente, e ainda teremos de voltar, sãos e salvos, pelo mesmo caminho.

O guia, o Derrotero de Valverde, começa assim...

¨Situados en el pueblo de Píllaro, preguntad por la hacienda de la Moya y dormir la primera noche a buena distancia sobre ella y preguntad allí por la montaña de Guapa... ¨ 

Pillaro é uma cidade um pouco menor que Ambato e fica em terreno mais alto, no lado oposto do rio Patate, apenas uns poucos quilômetros de distância, embora a jornada até lá seja muito prolongada por ser necessário passar a quebrada profunda do Patate, o que ocupa uma hora inteira. A fazenda de Moya ainda existe; e o Cerro de Guapa é claramente visível a leste-nordeste de onde estou escrevendo. 

"...desde cuya cima, mirando al Este y teniendo Ambato a la espalda, podréis divisar los tres Cerros Llanganati en la forma de un triángulo, en cuyos declives hay un lago, hecho por la mano del hombre, dentro del cual los antiguos arrojaron el oro que ellos habían preparado para el rescate del Inca cuando ellos supieron de su muerte. "

Eu ia dizer alguma coisa quando olhei e vi Henri aproximando-se de nós com seu chapéu de explorador que o faz parecer mais alto ainda, sorrindo meio sem graça, balançando ligeiramente a cabeça como quem pede desculpas, abrindo os braços para um cumprimento amistoso e sincero. 

Deveríamos ter nos encontrado em Pillaro mas, como sempre Henri se atrasou. Sem perda de tempo, tirou o guia da minha mão e começou a murmurar enquanto olhava para as montanhas.

-- Os três Llanganatis vistos do topo do Guapa são supostamente os picos Margasitas, Zunchu e o Volcan del Topo. 

Então, voltou-se para cumprimentar, um por um, todos homens, exploradores, ou carregadores, tratando a todos com o mesmo entusiasmo de sempre, o que o faz amado por onde quer que vá. Olhei o rosto dos homens e o cansaço pareceu haver desaparecido. Sorri, incrédulo, me sentindo, eu mesmo, um pouco cheio de energia. Com um sotaque inglês um pouco carregado, Henri leu uma parte do que estava escrito:

"Desde el mismo cerro Guapa también podrás ver la selva, y en ella un manchón de sangurimas que sobresalen de la dicha selva, y otro manchón que llaman flechas, y esos manchones son la marca principal por la cual te guiará, dejándolos un poquito a mano izquierda."

--Não vamos cometer o mesmo erro de Spruce. Já sabemos com certeza que as sangurimas não são Cecropia ou algo relacionado. Vamos em busca de um aglomerado de Espeletia, da família das Asteraceae.

Eu argumento que não podemos ter certeza disso, já que ninguém tem feito progressos nas tentativas de encontrar o lugar do tesouro.

Vejo-o caminhar até mim, retirando o chapéu e entrelaçando os finos cabelos loiros entre os dedos, onde uma discreta tatuagem se firma como parte de seus mistérios.

--Meu amigo, para encontrar algo que procuramos fora, precisamos antes encontrá-lo dentro de nós. Está lá em algum lugar e estamos bem perto. Eu sei porque está dentro de mim. Você é meu amigo, mas eu não viria aqui porque você é meu amigo. Estou aqui porque sou parte de tudo isso. Está tatuado dentro de mim, dentro do meu coração, da minha alma.

Abriu um pouco os braços e girou ao redor de si mesmo.

--Eu sei que está aqui. É como se eu mesmo o tivesse colocado lá.


                                                                   

                                                                   *****


Estou escrevendo em forma de livro. Espero que gostem e voltem para acompanhar o desenrolar da história. 

Esta é uma história de ficção baseada em fatos reais e os personagens foram criados por mim, podendo, ou não, ter qualquer semelhança com personagens reais ou históricos. Meu intuito é dar minha humilde contribuição para manter viva a memória do Império Inca. Obrigada e volte para ler o Capítulo II.




2.05.2021

Desvendando a Mancha de Sangurimas do Derrotero de Valverde.

 

                    

A mancha conspícua (1) de sangurimas que salta à vista e chama a atenção.


As "Sangurimas" na floresta são descritas para mim como árvores com folhagem branca; mas eu não consigo descobrir se elas são uma espécie de Cecropia ou de algum gênero relacionado. As "Flechas" são provavelmente a gigantesca cana-de-flecha, Gynerium saccharoides, cuja haste floral é o habitual material para flechas de índio. ¨                                                                                                                      Richard Spruce





O botânico escocês Richard Spruce, viajou pela América do Sul, a partir da costa  atlântica brasileira até a costa do Pacífico do Equador, de 1849 a 1864.  Foi o primeiro etnobotânico da América do Sul (2), descrevendo pela primeira vez as plantas usadas por várias tribos amazônicas, como as espécies alucinógenas usadas pelos xamãs e as espécies tóxicas usadas como ingredientes em venenos. Registrou o vocabulário de 21 línguas indígenas amazônicas, descobrindo um grande número de novas espécies de plantas, incluindo 400 espécies de briófitas como musgos e hepáticas, que eram sua especialidade. 
Mas, na verdade, as sangurimas são Espeletia, um gênero botânico pertencente à família Asteraceae. 


Espeletia, comumente conhecida como 'frailejones' ("grandes monges"), é um gênero de subarbustos perenes, da família do girassol. O gênero foi descrito formalmente pela primeira vez em 1808 e batizado em homenagem ao vice-rei de Nova Granada, José Manuel de Ezpeleta.


Espeletia killipii (ou espeletia argentea) prospera em ecossistemas de páramos de alta altitude, exibindo uma impressionante roseta de longas folhas prateadas projetadas para minimizar a perda de calor. O tronco é espesso, com folhas suculentas e peludas dispostas em denso padrão espiral e as folhas murchas ajudam a proteger as plantas do frio. 


Distinta por suas grandes flores amarelas em forma de margarida, espeletia killipii utiliza essas flores não apenas para reprodução, mas também como um farol para os escassos polinizadores de seus duros habitats de montanha. 

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A Espeletia é bem conhecida por contribuir para o mundo na sustentabilidade da água, ao capturar o vapor de água das nuvens que passam em seu tronco esponjoso,  liberando-o através das raízes no solo, ajudando a criar vastos depósitos de água subterrânea de alta altitude e lagos que eventualmente formarão rios. 



No coração da enigmática cordilheira Llanganates do Equador, essa árvore misteriosa e resistente prospera nas florestas envoltas em névoa. Reconhecida por suas características únicas e conexão com a tradição local, esta árvore ocupa um lugar fascinante na história e cultura equatorianas. Muito especial é sua associação com o lendário "Derrotero de Valverde", um guia que supostamente conduziria a um dos maiores tesouros escondidos da história: o tesouro perdido de Atahualpa, o último imperador Inca.



A árvore espeletia, nativa da região de Llanganates, é uma espécie robusta e duradoura adaptada às condições desafiadoras de seu habitat de alta altitude. Essas árvores são caracterizadas por seus troncos retorcidos, casca coberta de musgo e folhas perenes, que lhes dão uma aparência marcante contra o pano de fundo enevoado dos Andes.


A espeletia é extremamente valorizada pelas comunidades locais por sua importância ecológica e prática. Suas raízes contribuem para a estabilização das encostas das montanhas, prevenindo a erosão do solo no terreno acidentado da região. A madeira da árvore, embora raramente colhida devido aos esforços de conservação, é conhecida por sua densidade e durabilidade, tornando-a uma espécie de último recurso para os moradores locais que precisam de materiais para suportar condições adversas.


Além disso, a árvore fornece um habitat para uma variedade de flora e fauna, incluindo orquídeas, bromélias e uma infinidade de espécies de pássaros. Sua presença é um componente crítico do delicado ecossistema dos Llanganates, uma das regiões de maior biodiversidade do Equador.


A cordilheira dos Llanganates é tão enigmática quanto imensamente bela. Coberta por densas florestas nubladas e terrenos traiçoeiros, há muito tempo está envolta em lendas e segredos. Entre essas histórias, nenhuma é mais famosa do que a "lenda" do tesouro de Atahualpa. De acordo com a tradição, esse tesouro foi escondido em Llanganates para evitar que fosse encontrado pelos conquistadores espanhóis durante o século XVI.


O "Derrotero de Valverde", um guia atribuído a Valverde, um espanhol que, cerca de cinquenta anos após a morte de Atahualpa, teria ficado rico depois de ter sido levado até o tesouro pela família de sua noiva Inca. Ao morrer,  deixou instruções escritas para sua localização, o chamado Derrotero de Valverde contendo instruções enigmáticas sobre a localização desse tesouro escondido. No entanto, o guia é notório por suas descrições vagas e poéticas, como referências a marcos, riachos e características naturais únicas, incluindo árvores como a espeletia. Isso levou caçadores de tesouros e historiadores a especular sobre o possível papel da árvore na marcação ou ocultação de partes do tesouro.


A relação entre a árvore espeletia e o "Derrotero de Valverde" decorre das descrições detalhadas, embora enigmáticas, da paisagem natural de Llanganates no guia. A espeletia, com sua aparência distinta e abundante na região, é um dos marcos mencionados no documento. Caçadores de tesouros frequentemente vasculham áreas densas com árvores espeletia, acreditando que suas formas e localizações incomuns podem esconder pistas ou até mesmo câmaras ocultas contendo artefatos.



Embora nenhuma evidência definitiva tenha vinculado a árvore espeletia ao tesouro de Atahualpa, seu papel no "Derrotero de Valverde" continua sendo uma parte cativante da "lenda". A tradição local frequentemente se entrelaça com a árvore, pois os mais velhos contam histórias de exploradores que se perderam entre as árvores ou descobriram marcas estranhas em sua casca. Essas histórias aumentam a mística da espeletia e sua conexão potencial com a caça ao tesouro mais duradoura do Equador.



Apesar de sua associação com a caça ao tesouro, a árvore espeletia e seu ecossistema circundante enfrentam ameaças de desmatamento e atividade humana. Os esforços de conservação visam proteger a biodiversidade dos Llanganates, garantindo que suas maravilhas naturais, incluindo a espeletia, perdurem por gerações futuras.


Para exploradores e cientistas modernos, essa árvore  simboliza a rica herança natural do Equador e o fascínio duradouro do desconhecido. Seja como uma testemunha silenciosa do passado ou uma chave para desvendar um dos maiores mistérios da história, esta árvore notável continua a conquistar a imaginação de todos que se aventuram em seu domínio.



A árvore espeletia e o "Derrotero de Valverde" nos lembram que história, natureza e lenda muitas vezes se entrelaçam de maneiras fascinantes, deixando-nos com perguntas que despertam curiosidade e admiração — e talvez, apenas talvez, um tesouro esperando para ser encontrado.


                          

   

                                                                            

                                                                                                                                                                                                                                                 


1.29.2021

O TESOURO ESCONDIDO DE LLANGANATES

                       Llanganates / Equador






Venha comigo a um passeio que começa neste momento, voltando atrás quinhentos anos na intenção de surpreender o passado.

Imagine-se sob uma temperatura extrema, insuportável, entrando em uma horrível  tempestade que geralmente leva a terríveis inundações, acompanhadas de ruídos estranhos. Pouco a pouco vamos penetrando em uma misteriosa vegetação onde o musgo é tão grande que pode afundar um ser humano e cobrir a extensão de um abismo.
 
Cerro Hermoso é a cordilheira central de Llanganates, que não é exatamente uma cordilheira, mas um raro sistema de três montanhas agrupadas, encravadas nesta parte do beco interandino e que se extendem como ramificações nos Andes equatorianos. Pouquíssimas pessoas conhecem o local de Llanganates e daqueles que entraram, apenas alguns saíram vivos. Mas todos concordam que é uma espécie de oásis geológico no mundo andino.
 
Os Andes não estão parados, mas vivem em perpétuo movimento geológico. As estradas,  traçadas por montanhas e vales, movem-se constantemente.
As tubulações hidráulicas, feitas de concreto, se retorcem e rompem-se, a neve derrete, de vez em quando, dando origem a novos e imensos riachos aluviais. Todo o sistema andino é um promontório rochoso quebrado, a cicatriz de uma grande ruptura da crosta, de onde emergiram grandes buracos vulcânicos. Um aglomerado em torno dos escombros desse quebrado formou a enorme Cordilheira. Raramente existem rochas sólidas nos Andes, todas estão rachadas, queimadas ou esmagadas.
 
As colinas e picos vulcânicos da Cordilheira dos Andes são formados de cima para baixo. Os Llanganates, no entanto, são de baixo para cima. Eles são únicos.
Sempre que se fala em Llanganates, ele está envolto  em uma névoa muito densa ou tempestades que parecem catástrofes. Como um grande mistério, um mistério para muitos dos que entraram e não saíram de lá. 
 
Píllaro é o ponto de partida para Llanganates e não há outra entrada.
Llanganates é um lugar ideal para esconder algo e um esconderijo pode ser uma tumba permanente, uma tumba insondável onde o que ali caiu dificilmente pode ser extraído. Um abismo de mistérios e segredos eternos.

Teria sido ali, enterrado por Rumiñahui, uma parte do resgate em ouro de Atahualpa, bem como seu próprio corpo desaparecido?

Depois de entrar em Llanganates, estamos nos lançando no abismo do tempo, para tentar entender a história e a lenda. No caso dos Incas, posso dizer que a lenda é a história.
Como lenda, a tradição oral e escrita fala de um tesouro. O fabuloso tesouro que o exército levava para Cajamarca e que, provavelmente, foi escondido em Llanganates, algum tempo depois, em lugares que apenas Rumiñahui e alguns de seus homens conheciam.

Decididamente, em Llanganates, Rumiñahui, que era descendente do Atis de Pillaro, de Pillahuaso, deve ter escondido todas as riquezas que se dispôs a entregar para libertar seu soberano, quando este foi assassinado pelo opressor.

Geograficamente, os Llanganates estão fixados no triângulo formado por Latacunga, Baños e Puyo, onde a Cordilheira Ocidental ligou-se para produzir uma terceira montanha, limitando com o Amazonas desde a bacia do Napo e Pastaza.
 
Do final do século XVIII até a década de 1970 do século XX, cerca de cinquenta expedições foram feitas a Llanganates, mais de trinta delas lideradas por estrangeiros.
A mais documentada delas foi realizada pelo pesquisador de Quito Luciano Andrade Marín, em 1933 e 1934, que junto com dois italianos, Humberto Re e Tullio Boschetti, caminharam um mês e meio pela região de Llanganates.


"El Derrotero De  Valverde"

A verdadeira história desse guia (El Derrotero) perde-se nas brumas do tempo e das conquistas coloniais. O original estaria nos Arquivos Indianos e exigiria muita pesquisa para encontrar e determinar a autenticidade.
Aparentemente, há uma cópia impressa ou outra, daí a impossibilidade de determinar a autenticidade desta forma, mas em qualquer caso, trata-se de algo antigo e fascinante.
 
"Situados no povoado de Píllaro, perguntai pela Hacienda (fazenda) de la Moya e dormi a primeira noite a boa distância acima dela e perguntai ali pela montanha de Guapa (Cerro Hermoso?)... de cujo topo, olhando para o leste e tendo Ambato nas costas, podereis ver as três colinas Llanganati em forma de triângulo, em cujas encostas há um lago, feito pela mão do homem, no qual os antigos jogaram o ouro que haviam preparado para o resgate do Inca quando souberam de sua morte. Do mesmo morro Guapa também poderás ver a selva, e nela um aglomerado de sangurimas que se projetam da dita selva, e outro aglomerado que chamam flechas, e esses aglomerados são a principal marca pela qual vos guiareis, deixando-os um pouquinho para a esquerda, segui em frente desde Guapa na direção e de acordo com as indicações, e depois de terdes avançado uma boa distância, e tendo passado por algumas fazendas de gado, encontrareis a beira de um amplo pântano o qual tereis que atravessar e, saindo do outro lado, vereis à esquerda um pequeno caminho fora de um canavial sobre uma encosta, por onde devereis passar. Ao sair do canavial, vereis duas pequenas lagoas chamadas Los Anteojos (Os óculos), porque entre elas há uma ponta de terra como um nariz.

Deste lugar podeis divisar outra vez as colinas de Llanganatis, da mesma forma que as vistes do alto de Guapa, e eu vos aviso que deixeis as ditas lagoas à esquerda, e que na frente da ponta ou nariz há uma planície, que é o lugar para passar a noite. Lá deveis deixar vossos cavalos porque eles não podem ir mais adiante. Continuando agora a pé na mesma direção chegareis a uma grande lagoa negra, a qual deixareis do lado esquerdo e, para além dela, tratareis de descer a encosta, de forma a chegar a um desfiladeiro por onde desce um fio de água; e aqui encontrareis uma ponte de três mastros, ou se ela não existir mais, colocareis outro no lugar mais conveniente e passareis por cima dela. E tendo continuado por um curto trecho dentro da floresta, procurai pela choça que servia para dormir ou os restos dela. Depois de passar a noite ali, continuai vosso caminho no dia seguinte pela floresta na mesma direção, até chegar a outro desfiladeiro profundo e seco, através do qual tereis que fazer uma ponte e passar por ele, devagar e com muita cautela, pois o desfiladeiro é muito profundo; isso se não conseguirdes encontrar o passo que lá existe. Segui adiante e procurai os restos de outro lugar para pernoitar, que, garanto-vos, não deixareis de encontrar pelos fragmentos de potes e outras marcas, porque os índios por ali passam continuamente. 
Segui em frente e vereis uma montanha toda de margacitas (3), que deixareis à vossa esquerda, e eu vos aviso para contorná-la neste formato de G. Neste lado encontrareis um gramado em uma pequena planície, a qual, depois de passar por ela, chegareis a um passo estreito entre duas colinas, que é a Trilha Inca. A partir daí, ao continuar, vereis a entrada para o sumidouro, que tem a forma de um portal de igreja.
Tendo saído do estreito e percorrido uma boa distância, percebereis uma cachoeira que desce de um pequeno braço do Cerro Llanganates e deságua em um pântano do lado direito; e sem passar pelo riacho, no dito pântano tem muito ouro, de maneira que pondo na mão o que  puderdes empunhar, no fundo tudo são grãos de ouro. Para subir a montanha, saí do pântano e continuai à direita e passai pela cachoeira, contornando o pequeno braço da montanha. E se por acaso a boca do sumidouro for fechada com certas ervas que eles chamam de selvagens, retirai-as e encontrareis a entrada. E no lado esquerdo da montanha podereis ver a guayra (porque era assim que os antigos chamavam a fornalha onde eles fundiam metais), que é cravejada de ouro. E para chegar à terceira montanha, se não conseguirdes passar pela frente do sumidouro, é a primeira coisa passar por detrás, pois a água da lagoa cai dentro dele.
Se vos perderdes na mata, procurai o rio, segui até o canto inferior direito, tomai a praia, e chegareis ao estreito de tal forma que, mesmo que tenteis passar por ele, não encontrareis por onde; subi bem alto, a montanha do lado direito, e assim não perdereis de forma alguma o caminho. "

Esse documento que descreve cuidadosamente a localização do tesouro inca foi escrito por um espanhol chamado Valverde que morou no Equador e supostamente soube da localização do tesouro inca através da família de sua esposa nativa. Valverde, tendo retornado muito rico à Espanha, em seu leito de morte escreveu as instruções para a localização do tesouro,  enviando-a ao rei. Supostamente o rei a teria mandado ao Equador. Uma expedição foi organizada pelo administrador de Latacunga, Antonio Pastor y Marín de Segura e um sacerdote, Padre Longo, com o objetivo de encontrar esse tesouro. Todas as instruções foram seguidas mas, próximo ao local do tesouro, Padre Longo desapareceu, ou morreu, em circunstâncias misteriosas e a expedição foi abandonada. Depois disso, o guia de Valverde teria sido depositado nos arquivos públicos de Latacunga, cidade a noroeste de Baños. Bem...

A expedição quase chegara ao fim do percurso quando uma noite o Padre Longo desapareceu misteriosamente e nenhum vestígio dele pôde ser descoberto, talvez tenha caído em um precipício próximo ao acampamento ou em um dos pântanos que ali proliferam, fato é que nunca mais o encontraram. Depois de procurar em vão pelo sacerdote por alguns dias, a expedição voltou sem obter êxito e com esse rastro de morte em seu caminho."

No entanto, supostamente, Pastor parece ter descoberto muito ouro, mantendo consigo o guia, o Derrotero original, e deixando uma cópia na sede administrativa de Latacunga, com a pista final alterada, para que outros não pudessem encontrar o tesouro. Não são poucos os que acreditam que o tesouro tenha sido localizado e retirado por Antonio Pastor y Marín de Segura no final do século 18.

No ano de 1793, o sacerdote de Píllaro, Mariano Enríquez de Guzmán, fez uma expedição ao Llanganatis, aparentemente sem sucesso, pois utilizara o falso Guia deixado por Pastor, onde podia-se ler na capa as seguintes anotações "Guía o Derrotero que Valverde dejó en España donde la muerte le sorprendió a él, habiendo ido desde las montañas de Llanganati, a las cuales el entró muchas veces y sacó una gran cantidad de oro; y el Rey ordenó a los Corregidores de Tacunga y Ambato que buscasen el tesoro, cuya Orden y Guía se conservan en una de las oficinas de Tacunga"(Guia ou Rota que Valverde deixou na Espanha onde a morte o surpreendeu, tendo ido das montanhas de Llanganates, às quais entrou muitas vezes e retirou uma grande quantidade de ouro; e o Rei ordenou aos Corregidores de Tacunga e Ambato que procurassem o tesouro, cuja Ordem e Guia são mantidos em um dos escritórios em Tacunga). 

Seguindo essa linha do tempo, Pastor deixara sua família em Ambato, viajando para Lima, estabelecendo-se na capital e, havendo falecido sua esposa em 1801, casou-se, no Peru, em segundas núpcias, com Narcisa Martínez de Tejada y Ovalle, havendo desse casamento apenas um filho, José Mariano Pantaleón Pastor y Martínez de Tejada, nascido em 27 de  Julho de 1802.
Em 1803, Pastor teria embarcado um carregamento de valiosas barras de ouro e outros metais em uma fragata inglesa, para ser depositado no Royal Bank of Scotland (Escócia) por Sir Francis Mollison, conforme procuração outorgada em seu favor. As barras deveriam gerar juros e o valor total de tudo seria repartido entre os descendentes do referido casamento, mas apenas na quinta geração.

A lenda ganhou o mundo quando o botânico Richard Spruce descobriu  o Derrotero de Valverde e um mapa desenhado por um equatoriano em nome de Don Atanasio Guzmán, informação essa publicada pela Royal Geographical Society em 1860. 

Entre 1933 e 1934, Luciano Andrade Marín, geógrafo e historiador equatoriano, o italiano Tullio Boschetti, Umberto Ré e vinte e cinco indígenas carregadores fizeram uma expedição ao Llanganatis. Andrade Marín publicou o livro "Viaje a las misteriosas montañas de los Llanganati" (Viagem às misteriosas montanhas do Llanganates), com os registros do estudo que fizera da flora, fauna e geografia da região, narrando a fantástica expedição documentada naquele livro, declarado Patrimônio Cultural do Equador e que pode ser consultado na Biblioteca Nacional de Quito.
Andrade Marin mostra que o Derrotero contém vários dias de viagem, sendo que os primeiros três ou quatro dias denotam uma enorme precisão com  relação à realidade geográfica da região de Pillaro e quanto à entrada para as montanhas dos Llanganates.


Parece que em 1954 teria sido encontrado um rudimentar mapa do Tesouro, pintado em cores pelo Cura Enríquez que, não satisfeito com o mapa que havia feito, teria levado consigo a cópia do Guia dos escritórios de Latacunga,  que anos mais tarde parece ter pertencido ao Sr. Lorenzo Gortaire Viteri, morador de Quito no final do século passado, que a deixou para seus herdeiros quando morreu, os quais a teriam vendido a um sueco chamado Stellan Moerner, que se passava por conde em Quito no início deste século, mostrando-se muito interessado em localizar o tesouro.


 Descendentes diretos dos que haviam sido chefes na região contaram que o antigo rei de Píllaro de San Miguel, chamado Pillahuaso Ati, filho de Pillahuaso Ati de San Miguel, casara-se com a rainha Choazanguil de Huainacusi e fora pai de uma filha com a qual um dia casou-se o Inca Huayna Capac: deste casamento nasceu, em Píllaro, o General Rumiñahui.
 
Rumiñahui, irmão de Atahualpa, ou não, era seu homem de confiança. Desde novembro de 1532, quando Pizarro capturou Atahualpa, até agosto de 1533, quando foi executado, passaram-se nove meses até o trágico fim do Império Inca. Tempo que Pizarro aproveitou, lucrando com a grande confederação do povo Inca enquanto Rumiñahui apressava-se em coletar ouro para subsidiar a liberdade de Atahualpa.

Rumiñahui organizou a resistência e, ao mesmo tempo, tentou manter a liberdade dos seus domínios entre os quais encontrava-se o reino de Quito. Rumiñahui manteve a reação contra os espanhóis de um lado, enquanto lutava contra o que restava do império inca do outro.
Rumiñahui tinha poder real para fazer isso. Quando Huascar foi morto por outro exército de Atahualpa que, liderado por Quisquis, havia tomado Cusco, Rumiñahui foi o comandante supremo do império inca que, então, estava completamente desmembrado.

 De qualquer forma, quando, na calada da noite, o corpo de Atahualpa tomou a direção do norte, carregado pelo General Rumiñahui e seus soldados, desaparecendo na névoa dos Andes para sempre, levou consigo um rastro de segredos que jamais seriam revelados . Os espanhóis realmente tentaram, sob tortura, puxar pelo menos alguns desses segredos, mas não conseguiram nada. Apenas mais morte, tortura e destruição. Atahualpa conseguiu o que queria, dentro da tragédia que causara para si mesmo e para os outros: preservar seu corpo, para não ser destruído e poder voltar à vida, como sempre acreditaram todos os Incas. Preservando os tesouros porque, o que era apenas metal precioso para os estrangeiros, para os Incas era sua fé no Sol enquanto Deus, do qual o ouro era o suor, a fé em sua cultura de filhos do Sol e a preservação da própria vida, neste mundo e no próximo.



Bibliografia:

Frei Martín de Murúa: Historia general del Perú. Origen y descendencia de los Incas (1611).