12.20.2020

ENDÊMICAS DE CAJAMARCA















 Uma lufada veio repentinamente empurrando a grama alta, levantando as abundantes ramificações rasteiras dos pés de amora silvestre (1) agrupados a quase três mil metros de altura. Uma breve lufada mais quente, alisando suas folhas verde-escuras, ásperas, empurrando-as com força, deixando, temporariamente, à mostra o lado de trás dessas folhas compostas de três folíolos cobertos de pelos tão pequenos e densos que as deixam esbranquiçadas. Depois, com mais força ainda, lança essas estruturas vegetais elípticas, bordas serreadas, de bases arredondadas com pontas afiadas, contra os próprios caules espinhosos, quase a ponto de arrancá-las; as nervuras pinadas das folhas, marcadas com veias secundárias retas até a borda; iniciam o movimento de volta, juntando-se, outra vez, como se tentassem esconder seus ramos floridos, essas inflorescências axilares e terminais de vistosas flores hermafroditas que rompem o verde das plantas com cimeiras simples ou compostas, cachos ou panículas e flores solitárias, esbranquiçadas, rosadas, começando já a exibir seus primeiros frutos globosos cor de vinho, que mais tarde hão de torna-se escuros. Na natureza, os arbustos da amora silvestre atingem, apenas, um metro, um metro e meio de altura, com boas colheitas de frutos, nos meses chuvosos (2), porém, para colhê-los, às vezes, é preciso uma foice, devido aos espinhos. 

Quinhentas e dez plantas com propriedades medicinais foram registradas no norte do Peru.  Dois mil quatrocentos e noventa e nove usos diferentes foram registrados para as quinhentas e dez espécies encontradas. As mesmas espécies são frequentemente usadas para várias condições médicas e são aplicadas de maneiras diferentes para a mesma condição: uso tópico como cataplasmas ou banhos, uso oral com a ingestão de extratos vegetais, ou pelo uso de um ¨Seguro¨ que nada mais é do que um frasco cheio de ervas e perfumes servindo de amuleto protetor. A relação homem-natureza  parece ter-se mantido ao longo dos séculos desde a época incaica como se as mesmas lufadas de vento os mantivesse a salvo da destruição mas, as florestas montanhosas podem estar caminhando para uma extinção semelhante à sofrida pelo povo inca.

Vários fatores têm contribuído para a perda e a degradação dessas florestas, submetidas a processos de exploração desmedida, colonização desenfreada, desmatamento, fragmentação, extração de recursos não madeireiros, tudo agravado pelo crescimento populacional, pela desigualdade social e uma falta de planejamento quanto à mineração e, mesmo no tocante à agricultura. O que teria sido inimaginável na época inca, cuja organização funcionava de modo quase perfeito, expõe a vulnerabilidade das florestas montanas, com ênfase para as florestas nubladas cujo ecossistema parece ser afetado de modo especial, pois essas matas não se adaptam muito bem a variações climáticas e todas essas mudanças podem interferir no ciclo e na disponibilidade da água, colocando em risco plantas e animais.





(1) Rubus floribundus kunth (Rosaceae) “zarzamora”.

(2) Novembro e Dezembro.



Referências
 
1) Kunth, Carl Sigismund (1823) Nova Genera et Species Plantarum 6(25): 173 (ed. fol.), t. 557.











12.10.2020

CAMPO DE QUINOA NOS TERRAÇOS INCAICOS.


 
A quinoa é uma planta impressionante que se adapta muito bem a diversas condições. Ela normalmente cresce a alturas de um a dois metros com caules finos e folhas grandes e planas. As flores da quinoa são particularmente atraentes formando cachos densos no topo da planta; variam em cores, indo do verde ao vermelho, roxo ou amarelo, dependendo da variedade e maturidade da planta. À medida em que as sementes amadurecem, as flores dão lugar a grãos pequenos e arredondados que podem ser brancos, vermelhos, pretos ou uma mistura de tons.

A capacidade da planta de prosperar em altitudes de até quatro mil metros é uma prova de seu poder de adaptação. A tolerância da quinoa a condições climáticas extremas, incluindo luz solar intensa, noites frias e pouca chuva, ressalta sua importância como uma cultura de sobrevivência para os Incas. Agrônomos modernos estudam essas propriedades, buscando maneiras de resolver os desafios da segurança alimentar em outras regiões do mundo.




Os Incas tinham um vínculo muito forte com a quinoa, cultivando um relacionamento profundo e espiritual com a essa planta (“Chenopodium quinoa”). Muitas vezes chamada de “chisaya mama” ou “grão-mãe”, a quinoa era mais do que apenas um alimento básico; era uma pedra angular de sua cultura, agricultura e espiritualidade. Essa importante cultura continua sendo um símbolo de resistência e nutrição nas regiões andinas, um testemunho da engenhosidade e respeito dos Incas pelo meio ambiente.



A quinoa era parte integrante da dieta Inca, fornecendo uma fonte vital de nutrição nas regiões de alta altitude dos Andes, onde outras culturas lutavam para prosperar. Rica em proteínas, aminoácidos essenciais e uma série de vitaminas e minerais, a quinoa oferecia o sustento necessário para a vida exigente experimentada pelos povos que faziam parte do Império Inca. Ela era particularmente valorizada por sua capacidade de crescer em solos pobres, resistir à geada e suportar a seca — características que a tornavam indispensável no desafiador terreno andino.

Além de seu valor nutricional, a quinoa tinha um profundo significado espiritual. A cada ano, o Sapa Inca, o Imperador, plantava, de forma cerimonial, as primeiras sementes de quinoa da estação, usando um implemento agrícola de ouro. Este ato simbolizava a natureza sagrada da colheita e o vínculo entre os Incas e Pachamama, a Mãe Terra. A quinoa também era usada em rituais religiosos, incluindo oferendas aos deuses e como parte de festividades que celebravam os ciclos agrícolas.






Os Incas empregavam técnicas agrícolas sofisticadas para maximizar a produção de quinoa. O terraceamento (1), uma característica icônica da agricultura inca, era amplamente usado para cultivar quinoa em encostas íngremes de montanhas. Esses terraços impediam a erosão do solo, conservavam a água e criavam microclimas adequados para diversas culturas. Os incas também desenvolveram sistemas avançados de irrigação e técnicas de fertilização, muitas vezes usando matéria orgânica natural para enriquecer o solo.

A seleção de sementes era outro aspecto fundamental de suas práticas agrícolas. Os agricultores incas escolhiam meticulosamente as melhores sementes para o plantio, garantindo que as plantas mais resistentes e produtivas fossem propagadas. Essa prática ajudou a manter a diversidade genética e a adaptabilidade da quinoa, permitindo que ela sobrevivesse em condições ambientais variadas.



Hoje, a quinoa continua sendo uma cultura vital nas regiões andinas, celebrada por seus benefícios nutricionais e significado cultural. Sua popularidade global aumentou nos últimos anos, rendendo-lhe o título de "superalimento". No entanto, para os nativos dos Andes, a quinoa continua sendo muito mais do que um alimento saudável da moda. É um elo vivo com sua cultura ancestral, um símbolo de sua conexão duradoura com a terra e uma celebração da engenhosidade e respeito pela natureza que caracterizaram os habitantes do Império Inca.

Ao reconhecer o papel da quinoa na história e seu potencial para o futuro, nos apropriamos da sabedoria dos Incas e sua capacidade de harmonizar a agricultura com o mundo natural.


(1) Terraceamento é uma técnica agrícola que consiste em construir plataformas em terrenos com declive, chamadas de terraços, para controlar a erosão do solo e aumentar a produtividade das culturas. 







Visão Poética da Botânica dos Campos de Tarwi (Lupinus Mutabilis) no Império Inca.




Seus caules robustos, eretos, um tanto lenhosos, rompendo as alturas de dois, três, ou quatro mil metros montanha acima, com sua cor púrpura tendendo ao roxo, tocados pelas mãos do vento enquanto os pássaros entoam uma sinfonia de solidão e um sopro de névoa começa a desvanecer-se tocado pela luz do sol.

Esses tremoços silvestres, chamados tarwi, margeiam todos os caminhos, se espalham pelos espaços deixados para trás pela grama nos campos, como pedindo permissão onde outrora deixava-se cultivar com método e alegria.

As folhas, dedilhadas, palmadas, com folíolos de forma oblonga e pequenas folhas estipulares na base do pecíolo. Elípticos ou ampliados até o final,  glabros ou com pelos finos e tênues, pubescentes.

A inflorescência é um aglomerado terminal, com flores verticalmente dispostas. Flores pequenas, como borboletas, tipicamente papilionadas, uma corola com cinco pétalas, um vexilo ou pétala maior, uma quilha, formada por duas pétalas inferiores e duas asas ou pétalas laterais como qualquer flor das papilionáceas.
A quilha envolvendo o pistilo e dez estames monodélicos. 

Em uma única planta de tarwi podem ser contadas mais de mil flores, cujas pétalas variam desde o branco, o creme, o azul, até o roxo mais extremo.
Misture as cores primárias de vermelho e azul na natureza dos tarwis e, na teoria das cores, defina o púrpura como uma cor qualquer não-espectral entre o violeta e o vermelho. Decida-se pintá-los e o púrpura será a cor entre magenta e violeta, com todas as suas matizes e tons; prefira o roxo para não cometer erros.

Talvez há quinhentos anos um último giro pelo Império tenha carimbado na memória dessas montanhas a derradeira colheita dos tempos de paz.
Debulhar o tarwi nunca foi tarefa fácil, exige um trabalho pesado e cuidadoso. Mas, a planta seca era batida e ventilada para separar os grãos de suas vagens, com cuidado, para que homens e animais não fossem feridos pelas pontas afiadas dessas mesmas vagens.

Depois o grão colhido e seco era armazenado em recipientes fechados em lugares apropriados para que fosse preservado; para que nunca faltasse esse alimento  e ele pudesse ser semeado, novamente, girando o ciclo de sua existência. 


Uma vez que o amadurecimento estivesse completo e quando os frutos adquiriam uma cor amarelada, as plantas eram arrancadas e colocadas em ramos para terminar a secagem. A debulha era um processo que levava muito tempo e mão-de-obra.



O tarwi possui floração diferenciada entre os ramos principais e secundários o que faz com que, hoje em dia, em muitas ocasiões, duas a três colheitas sejam necessárias. Mas, há quinhentos anos, talvez fosse tudo diferente.
Na agricultura tradicional, é costume semear tarwi após um campo de batata, ou de milho, não sei se seria assim na época incaica, talvez mais uma lembrança daqueles que ousam preservar sua cultura. Posso apostar que sim.

Às vezes são cultivados ao redor de campos agrícolas, como cerca para plantações, como proteção para o gado e ovelhas.
Essa planta anual, às vezes mais alta que uma pessoa, de raízes curtas mas firmes, de flores que variam de cor, indo do azul ao roxo mais explícito; de flores que pendem das folhas para atrair insetos polinizadores, exalando um perfume semelhante ao mel. 

Na Serra, aqui e ali, urtigas. Algumas são verde-escuras e de caules e folhas crescidos; outras, menores, opostas em tudo às primeiras, de cor verde-clara e de folhas pequenas, crespas, quase redondas, de pelugem mais espinhosa que aquelas.
O resto delas são urtigas mortas, que já não picam quem as toca. Mas os nativos sabem como extrair remédio de suas memórias.

Lá embaixo, um pouco mais planície do que serra, os amarantos  vermelhos, brancos, lembrando os açucarados torrões de Guamanga, quem sabe não seja este o gosto do passado que permanece na lembrança...

No mais, é um atropelamento de espécies rivalizando beldroegas em flor; amarelinhas, de tão abundantes deixam ampliar a cor pelos campos verdejantes, esverdeados no desenho dos tufos.
Já estou me perdendo na Botânica, como um estudioso à procura de descobertas fora dos livros.










12.09.2020

OS OITO DIAS DE MIDDENDORF EM CAJAMARCA



Ernst Wilhelm Middendorf (1830-1908) foi um médico alemão, linguista e viajante que documentou extensivamente suas observações do Peru durante o tempo em que esteve lá no final do século XIX. Seu trabalho é um recurso inestimável para entender a cultura, a geografia e a história do país durante a época. Em maio de 1887, Middendorf permaneceu oito dias em Cajamarca. Descreveu a cidade e seus monumentos pré-hispânicos, incluindo a estrada que leva de Cajamarca às Termas Incas (Baños del Inca). Reconhecendo-a como obra pré-hispânica, observou: 

“A estrada para as termas passa por um vale em aterro pavimentado, obra que os Incas construíram, pois durante a estação das chuvas o solo fica lamacento e a estrada não seria transitável se não tivesse sido elevada e artificialmente afirmada ”.

Middendorf incluiu suas observações em seus escritos, particularmente em seu trabalho detalhado de vários volumes "Peru: Beobachtungen und Studien \ Uber Das Land e Seine Bewohner" ("Peru: observações e estudos sobre o país e seus habitantes" ).









Dentre os destaques mais relevantes do que Middendorf documentou sobre Cajamarca durante sua estadia, estão o significado histórico de Cajamarca;
Middendorf estava profundamente interessado na história de Cajamarca, especialmente seu papel central durante a conquista espanhola do Império Inca. Com relação a isso, narrou os eventos em torno da captura de Atahualpa, o último imperador soberano Inca, pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro, em 1532. Middendorf descreveu a "Plaza de Armas" (Praça Principal) de Cajamarca, onde Atahualpa foi mantido em cativeiro e onde o aposento do resgate está localizado.

Ele narrou vividamente o significado do resgate pago pelos Incas, que consistia em tesouros de ouro e prata, e como isso marcou o declínio do Império Inca. Suas descrições geralmente pretendiam fornecer aos leitores europeus uma sensação do peso histórico desse local.







Outro destaque relevante foi que Middendorf pintou uma imagem detalhada de Cajamarca de acordo com sua experiência naquele local no século XIX. Ele descreveu a cidade aninhada em um vale fértil cercado pelos Andes, com um clima leve e uma beleza natural abundante. O layout da cidade, a arquitetura colonial e os edifícios religiosos deixaram nele uma forte impressão. Ele observou a importância da La Catedral (a Catedral) e a Iglesia de Belen, enfatizando beleza arquitetônica e significado histórico.

A sala (ou aposento) do resgate, ou "El Cuarto del Rescate", foi um dos focos essenciais dos escritos de Middendorf. Acredita-se que esta pequena sala de paredes de pedra tenha sido o local onde Atahualpa foi preso e onde ele prometeu encher a sala com ouro e duas vezes com prata como resgate por sua libertação. Middendorf mediu e estudou a estrutura, registrando suas dimensões e especulando sua autenticidade como um local histórico. Ele refletiu sobre a trágica traição de Atahualpa, que foi morto apesar do resgate sendo pago.





Além disso, Middendorf ficou fascinado pelo povo de Cajamarca, observando suas raízes nativas e a mistura das tradições incas e hispânicas. Ele observou a vida cotidiana na cidade, comentando as práticas agrícolas, roupas e costumes da população local. Seus relatos fornecem informações sobre as condições socioeconômicas de Cajamarca durante o tempo que passou lá, destacando a resistência física e espiritual, e a riqueza cultural de seus habitantes.

Um destaque particular da visita de Middendorf a Cajamarca foi o local chamado Banhos del Inca (banhos do Inca), um conjunto de fontes termais naturais localizadas perto da cidade. Esses banhos térmicos foram historicamente usados ​​pela realeza Inca, incluindo o próprio Atahualpa, e são conhecidos por suas propriedades terapêuticas. Middendorf descreveu os banhos como uma característica natural impressionante e maravilhou-se com seu uso contínuo pelos habitantes locais.







A parte mais interessante de sua pesquisa, e o que me atraiu para ele foi, sem dúvida, o fato de Middendorf também ter sido um naturalista muito dedicado e ter documentado com louvor a biodiversidade da região de Cajamarca. Ele escreveu sobre os vales férteis, as culturas cultivadas por agricultores locais (como batata e milho) e uma fantástica região de vegetação única. Sua formação científica permitiu classificar algumas das plantas nativas e analisar seus usos na medicina e agricultura tradicionais.

O legado de Middendorf em Cajamarca é muito grande. Seus escritos continuam sendo uma fonte essencial para a compreensão de Cajamarca do século XIX e, queira ou não, um retrato muito mais aproximado com o que ela fora no passado, durante o Impéro Inca. Suas observações meticulosas capturaram um instantâneo de uma região mergulhada em história, cultura e beleza natural. Seu trabalho é particularmente valioso para historiadores, antropólogos e arqueólogos que estudam a transição dos tempos pré-colombianos para coloniais e modernos no Peru.

Os oito dias de Middendorf em Cajamarca foram curtos, mas impactantes. Seus registros continuam a ressoar como uma ponte entre o passado e o presente, oferecendo um raro vislumbre de uma cidade que desempenhou um papel definidor na história do Peru e das Américas.