ALBORADA - SAYRI ÑAN

2.12.2012

INTIP CHURIN - FILHOS DO SOL- O TRIGO E A PALHA





                                             (Tupac Amaru I)



"Orgulharem-se de ser filhos do Sol era o que mais os obrigava a serem bons, para destacarem-se dos outros, na bondade e no sangue, de modo que os índios acreditassem que um e outro lhes veio por herança. E assim acreditavam, e com tanta certeza, na opinião deles, que quando algum espanhol falava elogiando alguma coisa das que os Reis ou algum parente deles tivesse feito, respondiam os índios: "nâo te espantes, pois eram Incas." E, se, pelo contrário, desacreditavam de alguma coisa mal feita, diziam: "não acredites que Inca algum tenha feito isso, e, se fez, não era Inca, apenas algum bastardo espião." ... "(Garcilaso de la Vega)
 
Ao estabelecer qualquer lei ou o sacrifício, tanto no sagrado quanto no profano de seu governo, atribuíam ao primeiro Inca Manco Capac, dizendo que ele tinha ordenado todas elas, algumas que havia deixado elaboradas e postas em uso e outras, delineadas, para que seus descendentes, por sua vez, as aperfeiçoassem. Porque ele era o filho do sol, vindo do céu para governar e dar leis a todos, leis para o benefício comum dos homens e, também, os sacrifícios que eles deveriam oferecer em seus templos.


 
"Entre eles, um com o outro, diziam que o Inca, não contente de tê-los retirado das feras e tê-los transformado em homens, nem satisfeito com os muitos benefícios que lhes havia feito, ensinando a eles as coisas necessárias para a vida humana, as leis naturais para a vida moral e o conhecimento de seu Deus, o Sol, o que seria suficiente para que fossem seus escravos perpétuos, se fizera homem para dar-lhes suas insígnias reais e, finalmente, ao invés de impor tributos (1) e impostos, lhes havia transmitido a majestade de seu nome, de tal forma que entre eles era tido por sagrado e divino, que ninguém ousava proferí-lo senão com a maior reverência, só para citar o Rei; e que, agora, para lhes dar mais importância, tornou-se tão comum que todos podem falar de boca cheia, feito filhos adotivos, contentando-se eles em ser meros vassalos do Filho do Sol "(Garcilaso)


Todas as vezes que o Inca (e seus descendentes) sentia-se morrer, dizia que voltaria "para o céu, para descansar com seu pai o Sol". Assim, Manco Capac, o primeiro Inca disse a todos os Incas de privilégio que, tendo que deixá-los, para ir descansar com seu pai, o Sol, queria dar-lhes o máximo de seus favores, o sobrenome de seu nome real, "para que eles e seus descendentes vivessem honrados e estimados por todo o mundo. Então, para que vissem o amor que tinha por eles, como filhos, mandou que eles e seus descendentes, para sempre, se chamassem Incas, sem qualquer distinção ou diferença de uns ou outros, como haviam sido os favores e outras concessões passadas, mas que plenamente, e de forma geral, desfrutassem todos da magestade desse nome. "(Garcilaso)

Esses primeiros vassalos que teve Manco Capac, ele os amava como filhos e deu-lhes suas insígnias e nome reais e os chamou de filhos, porque ele esperava deles e seus descendentes que, como tais filhos, servissem ao seu Inca atual e aos que o sucedessem nas conquistas de outros índios para aumentar seu império, e que deveriam guardar tudo no coração e na memória, como vassalos leais. Só não queria que suas esposas e filhas se chamassem Pallas, como as de sangue real, porque não sendo as mulheres capazes de servir na guerra, tão pouco o eram para o sobrenome e nome reais.

Estes são os chamados Incas de privilégio.
 



Como relata Garcilaso, a quase total extinção do Incas reais e desses de privilégio em sua época:



"Desses Incas, feitos por privilégio, são os que agora existem no Peru que são chamados Incas, e suas esposas são chamadas de Pallas e Coyas, por desfrutar da depreciação que a eles e às outras nações, nisso e em muitas outras coisas semelhantes, lhes fizeram os espanhóis.


Que Incas de sangue real há poucos, e por sua pobreza e necessidade, desconhecidos, senão este ou aquele, porque a tirania e a crueldade de Atahuallpa os destruiu. E os poucos que dela escaparam, ao menos os mais principais e notórios, acabaram em outras calamidades, como diremos em seus lugares. "(Garcilaso)




Das insígnias usadas pelos Incas na cabeça, o Inca Manco Capac reservou uma para si próprio e os Incas (reis) seus descendentes: uma borla vermelha, como um 'rapacejo' (2), que se estendia pela frente de um lado a outro da face. A do príncipe herdeiro era amarela e menor do que a do pai. (3)


SEPARANDO A PALHA DO TRIGO...




Considerando a grandeza das concessões e do amor com que o Inca as havia feito, os Incas de privilégio buscaram títulos que igualassem a altura da sua coragem e significassem, também, suas virtudes. Assim, entre outros que inventaram, um foi Capac, que significa rico, não de bens materiais, que, como dizem, este Príncipe tinha riqueza de espírito, mansidão, misericórdia, generosidade, justiça, magnanimidade, desejo e obras para fazer o bem aos pobres. Assim, dignamente, o chamaram Capac - que também significa rico e poderoso em armas; o outro nome foi Huacchacúyac, amante e benfeitor dos pobres, para que significasse os benefícios que aos seus havia feito.
Desde então, o príncipe foi chamado Manco Capac, tendo sido chamado, até aquele momento, Manco Inca.


Como assegurou Garcilaso, Manco é nome próprio, mas "não sabemos o que isso significa na linguagem geral do Peru, ainda que na particular, que os incas tinham para conversar entre si (a qual, me escrevem do Peru, já se perdeu completamente) deve ter tido algum significado... "


O nome Inca, para o Príncipe, significa Senhor, Rei ou Imperador, nos demais significa senhor, e em todo o seu significado, significa homem de sangue real, porque os curacas (chefes), por maiores senhores que fossem, não eram chamados Incas.


Para distinguir o Rei dos demais Incas, o chamam  Zapa Inca, que significa Único Senhor. Também chamavam a este seu primeiro Rei e a seus descendentes Intip Churin, que significa Filho do Sol, mas este nome não lhe davam por imposição, mas porque acreditavam nisso.


O Inca Manco Capac morreu e deixou por príncipe herdeiro Sinchi Roca, seu filho primogênito e da Coya Mama Ocllo Huaco, sua esposa e irmã. Além do príncipe deixou outros filhos e filhas, que se casaram uns com os outros, para manter limpo o sangue que descendia do Sol, porque ele realmente deveria permanecer limpo, sem misturar-se com outro sangue, porque o tinham por divino e todos os outros por humano, embora de grandes senhores, de vassalos chamados curacas.
O Inca Sinchi Roca se casou com Mama Ocllo (ou Mama Cora) sua irmã mais velha, para imitar o exemplo do pai e dos avós Sol e Lua, porque acreditavam que a Lua era a irmã e esposa do Sol. Fizeram  este casamento para conservar limpo o sangue e para que ao filho e herdeiro lhe pertencesse o reino tanto por sua mãe como por seu pai. Os outros irmãos, legítimos e ilegítimos, também casaram-se uns com os outros, para preservar e aumentar a sucessão dos Incas. Mas o casamento destes irmãos, uns com os outros, que havia ordenado o Sol e que o Inca Manco Capac havia mandado, foi porque não tinham filhos com quem se casasem, de modo que o sangue fosse mantido limpo. A partir de um certo momento, não podiam mais casarem-se com a irmã, apenas o Inca herdeiro, o que conservaram eles no processo da história.




O Inca Sinchi Roca se casou com Mama Ocllo (ou Mama Cora) sua irmã mais velha, para imitar o exemplo do pai e dos avós Sol e Lua, porque acreditavam que a Lua era a irmã e esposa do Sol. Fizeram este casamento para conservar limpo o sangue e para que, ao filho e herdeiro, pertencesse o reino, tanto por sua mãe como por seu pai. Os outros irmãos, legítimos e ilegítimos, também casaram-se uns com os outros, para preservar e aumentar a sucessão dos Incas. Mas o casamento destes irmãos, uns com os outros, que havia ordenado o Sol e que o Inca Manco Capac havia mandado, foi porque não tinham filhos com quem se casasem, de modo que o sangue fosse mantido limpo. A partir de um certo momento, não podiam mais casarem-se com a irmã, apenas o Inca herdeiro, o que conservaram eles no processo da história.


O Inca Manco Capac foi pranteado por seus súditos com grande sentimento e choro e o funeral durou muitos meses; embalsamaram seu corpo para tê-lo consigo e mantê-lo à vista; adorando-o como Deus, Filho do Sol; oferecendo-lhe muitos sacrifícios.
 
É verdade que os Incas fizeram as leis e ordenanças, recuperando algumas, novamente, e reformando outras, segundo eram solicitadas pelo tempo e as necessidades. O importante a definir é, ainda que, um ou outro Inca, tenha se destacado como grande legislador, dando muitas leis novas, emendando e ampliando todas as que encontrou prontas, e que tenha ordenado muitos ritos e cerimônias em seus sacrifícios, transformando muitos templos com grandes riquezas, e que tenha ganho muitos reinos e províncias, isso tudo era atribuido ao primeiro Inca, como no início de seu império.


Pedro de Cieza de León, na primeira parte da 'Crónica del Peru', escreveu em cada província a relação que davam dos costumes de cada uma delas, bárbaras ou políticas, dizendo o que cada nação tinha antes que os Incas as tivessem conquistado e o que tiveram depois  de terem prevalecido. Demorou nove anos para recolher e escrever as relações que lhes foram dadas (1541-1550):




"Por que nesta primeira parte tenho muitas vezes que tratar dos incas e dar notícia de muitos edifícios e outras coisas memoráveis, pareceu-me justo dizer algo sobre eles neste lugar, para que os leitores saibam o que estes senhores foram e não ignorem o seu valor....




...havia antigamente grande desordem em todas as
províncias deste reino que chamamos de Peru, e que os nativos eram tão irracionais e ignorantes, que é inacreditável, porque dizem que eram muito brutais e que muitos comiam carne humana...
...saíam a guerrear entre si e se matavam e aprisionavam a todos os que pudessem...


Estando dessa forma todas as províncias do Peru, surgiram dois irmãos, um deles tinha por nome Manco Capac,... Esse Manco Capac fundou a cidade de Cozco e estabeleceu leis a seu modo, e ele e seus descendentes foram chamados de Incas, cujo nome que dizer ou significar Reis ou Senhores. Eles tinham tanto poder que conquistaram e imperaram desde Pasto até o Chile. E suas bandeiras estavam, ao sul até o rio Maule e ao norte até o rio Angasmayo, e esses rios eram os termos de seu império, tão grande que, de uma parte a outra tem mais de de mil e trezentas léguas.

Eles construíram grandes fortalezas e fortes edifícios, e em todas as províncias colocaram capitães e governadores. Eles fizeram coisas tão grandes, e tiveram tão bom governo, que poucos no mundo os superaram. Eles eram muito brilhantes e tinham relevo mesmo sem as Letras, porque estas não foram encontradas nestas partes das Índias.


Eles ensinaram bons costumes a todos os seus súditos e lhes ordenaram para que calçassem sandálias em vez de sapatos, que são como 'albarcas'. Eles se preocupavam muito com a imortalidade da alma e outros segredos da natureza. Eles acreditavam que havia um Criador de todas as coisas, e ao Sol tinham por Deus Soberano, para o qual construíram grandes templos. "(Cieza de León)


FALAREMOS DAS LEIS EM OUTRO CAPÍTULO DESSA HISTÓRIA...

Os sacerdotes da casa do Sol, em Cuzco, eram todos Incas de sangue real, mas para os outros serviços do templo eram Incas de privilégio.
O Sumo Sacerdote, ou Sacerdote Principal, deveria ser um tio ou irmão do Inca ou, pelo menos, de sangue legítimo, de modo que os sacrifícios e cerimônias estivessem em conformidade com o templo metropolitano - em todos os negócios preeminentes, de paz ou de guerra, colocavam Incas por superiores.

Deixo a Cieza de León as últimas palavras, vindas do passado, tentando fazer do futuro uma esperança...

"... Ganharam tanto a graça de todos, que foram por eles amados em grau extremo, como me lembro de ter visto através dos meus olhos a velhos índios, diante de Cuzco, olhar para a cidade e fazer grande alarido, o que se transformava em lágrimas de tristeza, contemplando o tempo presente e se recordando do passado,
onde, naquela cidade, por tantos anos tiveram por senhores gente sua, que haviam sido capazes de atraí-los para o seu serviço e amizade de uma forma diferente da maneira dos espanhóis. " (Cieza de León)

"Mas deixemos o que foi feito para Deus, que Ele sabe porquê e, no que de aqui por diante for feito, supliquemos que nos dê Sua graça para que paguemos alguma coisa a pessoas que tanto devemos e que tão pouco nos ofenderam para terem sido tão molestadas por nós, estando o Perú e as outras Índias tantas léguas de Espanha e tantos mares no meio. (Cieza de León)


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(1) Pechos são aqueles pagos ou contribuições que davam ao Rei os homens bons chamados, comumente, plebeus (pecheros), ou do estado geral em razão de sua vassalagem, defesa na guerra e conservação na paz.
(2) rapacejo - Fio coberto ou 'fio de alma', de cânhamo ou o algodão, sobre a qual se torce estame, de seda ou de metal para formar franjas. Fio de alma, é o fio que forma o núcleo da resultante.

(3) Esta borla vermelha, que era a insígnia da dignidade real, chamava-se Mascapaicha (e não Mascaipacha, como é, muitas vezes, erroneamente, escrita e, apesar da vermelha ser usada, apenas, pelo Soberano, franjas semelhantes eram utilizadas pelos nobres e parentes.

(4) albarca - Rústicos sapatos de couro, ou de borracha que cobre a planta dos pés e os dedos, com uma borda em torno dela, e amarrados com cordas ou correias para o peito do pé ou tornozelo.
 



BIBLIOGRAFIA


Garcilaso de la Vega, Comentarios Reales.
Pedro de Cieza de Léon, La crónica del Peru.


Os textos originais em espanhol podem ser lidos aqui mesmo, no blog, na seguinte postagem:
http://princesinhadiseda.blogspot.com/2011/06/intip-churin-hijos-del-sol-el-trigo-y.html

http://princesinhadiseda.blogspot.com/2011/07/de-los-tributos-del-tahuantinsuyo.html

http://princesinhadiseda.blogspot.com/2011/07/hablando-de-las-leyes-en-el.html