ALBORADA - SAYRI ÑAN

2.04.2011

YAWAR MAYU - TRAVESSIA DA MORTE




Nos Andes, o conceito de morte não é definido como o momento em que o corpo
pára de respirar. É um longo, longo, processo que inclui a aproximação do ato propriamente dito e continua após a expiração, quando os mortos continuam a habitar o mundo dos vivos.
Assim, os mortos andinos são mais corretamente definidos na palavra quéchua huañuc - "mortal"  (a palavra quéchua huañuy ("morrer") foi usada para significar "completamente e perfeitamente" e não significa o fim absoluto da existência humana, mas, sim, uma nova etapa) - a morte é um processo gradual e não termina quando o corpo termina. Este longo processo pode ser identificado em uma série de condições que são consideradas morte temporária ou quase-morte: sono profundo ou "coma", desmaio, bebedeira ou quase-morte.


(Huañuc é um processo intermitente que marca a passagem de vital e fresco (mas, também, sem forma e mutável)  para o imutável tipo de existência típico de seres muito velhos - uma analogia
com plantas, animais e pessoas que passam de estados de vida tenra, suculenta e de rápida mutação, como é o caso de plantas tenras e bebês, para estados pesados, de muito longa duração, como cascas secas, árvores, pessoas idosas e ancestrais mumificados.
O estado de huañuc termina com os rituais finais de luto que transformam a pessoa em um permanente,  ou consagrado, ancestral. Durante a sua transformação, o aspecto não-corpóreo do falecido é preparado para embarcar em uma viagem que termina no reencontro com os antepassados, em seu lar ancestral.
Por outro lado, o conceito de princípio vital ou vigor da anima que, em quéchua é conhecido pelos termos upani ou camaquen. Durante o período colonial também encontramos os termos anima e alma, como em animacunata (espíritos dos mortos).
Guaman Poma descreveu os espíritos de pessoas do Collasuyu e Cuntisuyu que partiam para Puquina Pampa e Coropuna onde eles se uniriam. Ainda hoje, em Cuzco, a montanha Coropuna é conhecida como a terra dos mortos.
Também se acredita que o mundo dos mortos incluía fazendas onde continuavam a semear e a lavrar os campos pois tinham fome e sede. Assim, o alimento e a bebida eram, periodicamente, oferecidos aos mortos. No século XVII, Cristóbal Haca Malqui, relatou que o aumento do número de mortos havia causado um aumento excessivo no mundo ancestral, de tal forma que os campos distribuídos (topos) se haviam reduzido ao tamanho de uma unha.


Tal como outrora, ainda se acredita nisso hoje, com alguma variação de região para região.


A crença em uma terra dos mortos, com os campos e culturas, continua. Em Sonqo, comunidade a nordeste de Cusco, dizem que os ancestrais (machukuna - antigo povo) vivem em um mundo paralelo à moderna comunidade; seus campos de batata ocupam o mesmo lugar (em uma outra dimensão), dos campos da comunidade local.
Embora habitando outra dimensão, os mortos continuam a existir em estreita associação com os seus restos mortais. Os Incas, cuidadadosamente, cuidavam de suas múmias como sagradas e, os contemporâneos agem de modo semelhante: nas comunidades rurais é comum ver o crânio de um antepassado, no alto de uma prateleira, velando por seus descendentes.


Consideram, também, que é muito perigoso deixar que uma "alma" não alcance o seu destino. Se algo der errado ela voltará para a comunidade. A "anima" poderia causar terríveis doenças, acidentes e aparecer antes do iminente desenlace de um parente ou amigo. Assim, infelizes episódios são atrinuídos, não ao indivíduo, mas, à natureza malévola de sua anima.
Nem todas as anima alcançam seu destino - o mundo ancestral.
As almas dos indivíduos pecadores não podem deixar o corpo e estão condenadas a vagar com a carne pútrida apodrecendo fora dele. Essas criaturas são conhecidas como Kukuchi e lembram, na tradição ocidental, os condenados a permanescer no purgatório (ou a vagar no limbo). Os kukuchi são condenados a vagar pelas geleiras; são muito temidos pelo seu desejo de comer carne humana.

O ponto chave de tudo o que estou dizendo é o ponto crucial dessa viagem no mundo dos mortos e o que determina que sua travessia seja satisfatória, ou não. Trata-se da Achachaca ou Ponte dos Cabelos. Achachaca é uma ponte estreita (fina) sobre um rio largo, feita de cabelo humano. A quem sustente que existe um bando de cães de cor negra, por ali, e não é difícil que, em algumas comunidades, matem os cães, assim descritos, quando são encontrados. Devo confessar que gostaria de ter encontrado mais material de pesquisa para apresentar um melhor relato dessa travessia.
A travessia da Ponte de cabelos, Achachaca, parece ser o aspecto mais descrito e conhecido da viagem do morto. A travessia é considerada muito perigosa e a ajuda humana necessária. Oferendas de cabelo humano são queimadas para que a anima consiga atravessar a ponte com êxito.


Também acredita-se na travessia do perigoso Puka Mayu, Rio Vermelho (também chamado Yawar Mayu, Rio de Sangue) que é feita pelo espírito que, no caso, é transportado por cães pretos, marrons ou malhados.
O mundo dos mortos é o mesmo lugar dos que esperam para nascer. Durante os rituais de sepultamento, ao falecido são oferecidas, para a viagem, roupa, comida e bebida. Ele prossegue, ao longo de rios subterrâneos, e sobe três níveis, dentro de uma montanha, antes de alcançar sua pacarina no lago das terras altas. Os três níveis se relacionam com a jornada de três anos, daí a necessidade de três banquetes rituais anuais, por parte da comuunidade, para alimentar seus mortos.
O papel dos cães parece ser muito relevante, em se tratando de Yawar Mayu, o Rio de Sangue.
Tem mais sorte em contar com a ajuda deles para atravessar o Rio quem trata bem os cães enquanto está vivo.
Os cães não apenas podem mover-se entre os domínios da vida e da morte, mas também são capazes de ver as almas dos mortos. Por outro lado, as almas infelizes podem assumir a forma de cães pretos e visitar seus parentes vivos à noite.


                                (cão típico do Peru)
Para finalizar, em uma analogia entre o mundo dos mortos e o dos vivos, eu citaria o etnógrafo e escritor peruano José María Arguedas que deu seu recado ao falar sobre a palavra INCA.
Inca não significa, apenas, o imperador, "INQA" (segundo ele, esta é a verdadeira forma) é o nome para o modelo original de cada ser, segundo a mitologia quéchua. Assim, as miniaturas humanas podem ser mais poderosas do que os gigantes, pois são capazes de conter a potência de todos os antepassados em cada indivíduo.