ALBORADA - SAYRI ÑAN

2.05.2011

QAMPI-CAMAYOQ -O LADO AVANÇADO DA MEDICINA





Quero falar de um assunto que detesto mas, parece interessante para a maioria das pessoas. Não me sinto muito à vontade porém, lá vai...


Não, não conta a lenda... Porque estudos sérios foram realizados e alguma coisa real parece ter sido estabelecida de fato. Digo parece porque é difícil separar o joio do trigo, como em tudo o que se refere ao Império Inca. Misturam as várias Civilizações e Culturas anteriores e que serviram de base para a formação do povo inca ( Mochica, Chimu, Tiahuanaco, Huari, Chavin) mas que, de fato e de verdade, apenas, influenciaram sua Cultura - seu modo de lutar, de governar, suas regras, tudo, enfim, foi organizado e posto em prática em pouquíssimos anos. Estamos falando, aqui, de milhares de anos de civilizações pré-incas contra cento e poucos anos de Império Inca. No entando, quem sou eu para contradizer aqueles que se ocupam de estudos, e mais estudos, científicos para determinar o que foi e o que não foi.
Então, meio lenda, meio realidade, como se diz atualmente... rompendo o "tecido da realidade", lá vamos nós...


Contam os estudos...


Quando um inca ficava doente, chamava o qampi-camayoq (ou hampicamayoc), literalmente, um "encarregado dos remédios"; ele tinha o dever de cuidar da saúde do Inca e de sua família. Valdivia (1) (1986) diz com respeito a isso: "era o verdadeiro médico, no sentido estrito da palavra, e exercia a medicina, exclusivamente, a serviço do Inca ou da nobreza."


No entanto, apesar de pessoas ligadas ao Inca e sua família, o que o colocaria em uma posição afastada das pessoas comuns, sabemos, através desses estudos em medicina, que os qampi-camayoq agiram de forma efetiva nas guerras, por exemplo, onde aplicavam uma medicina, altamente, avançada e com excelente resultado, embora, é claro, não pudessem salvar a todos os que necessitavam de seu preciosso auxílio.




Cirurgia, anestésicos e outras práticas cirúrgicas estavam avançadas, entre os Incas, assim como nas culturas pré-incas que os precederam - eles executavam as mais delicadas operações de crânio, trepanando as cabeças dos guerreiros feridos pelo impacto de um machado de combate e removendo os pedaços de osso que pressionavam o cérebro causando paralisia.




Inúmeros crânios encontrados nos túmulos apresentam regeneração do tecido ósseo, revelando que uma operação cirúrgica realizada, alí, obtivera êxito. Do mesmo modo, foram descobertos crânios, que haviam sofrido intervenções cirúrgicas, em túmulos de culturas anteriores de cerca de dois mil anos.
É preciso constatar que, graças aos estudos realizados pelos cirurgiões peruanos, Francisco Grana e Esteban Rocca, o avanço nessa área da medicina, no período Inca pode ser, devidamente, comprovado - com os mesmos instrumentos e empregando as mesmas técnicas incas para operar ( com exceção da anestesia geral), Grana e Rocca efetuaram uma trepanação num paciente vivo. Do mesmo modo, aplicaram torniquete inca (que se aplicava em volta da cabeça), provando a eficácia de seus métodos cirúrgicos.





No auge do Império, como na época de Tupac Yupanqui e Huayna Qhapaq, por exemplo, havia duzentos mil guerreiros em um só exército; dez mil membros só na guarda imperial (soldados de elite). Segundo consta, os Incas foram capazes de mobilizar milhões de soldados (Pachacutec (2) contou com quatro milhões e meio de soldados em suas campanhas e, Tupac Yupanqui, seis millhões).





Uma das armas ofensivas mais comuns era a macana (quéchua chaska chuqui, ou lança com ponta de estrela), instrumento cuja "extremidade contundente" era redonda, ou em forma de estrela, e feita de pedra ou bronze. Eram as armas mais comuns do exército inca e também eram feitas de ouro ou prata, de acordo com a graduação do soldado. O melhor lugar para desferir o golpe era a cabeça, sendo abundantes as lesões no crânio adquiridas em batalhas. Percebendo a relação existente entre o ferimento ocasionado por uma macana e a pressão no cérebro os qampi-camayoq desenvolveram a técnica de trepanar.





Mais de 10 mil crânios operados foram encontrados, no interior de túmulos, por todo o Peru e, em muitos deles, instrumentos cirúrgicos, como facas de obsidiana (tipo de vidro natural, de cor preta ou escura, produzido por vulcões quando a lava esfria rapidamente) - as lâminas de obsidiana podem ter uma borda de corte tão fina quanto a dos bisturis de aço cirúrgico de alta qualidade com cabos de madeira, para trepanar. Ainda encontraram tumis (facas cerimoniais), que usavam para cortar o couro cabeludo. Faziam parte do arsenal cirúrgico talhadeiras (escopos) de bronze, pinças de cobre e agulhas de sutura. Foi com esses instrumentos que os médicos Grana e Rocca efetuaram uma trepanação em um paciente vivo.






No Império Inca, a neurocirurgia era adiantada e sofisticada. Ficou evidenciada a delicadeza que os cirurgiões tinham ao operar, pois preservavam importantes sulcos e circunvoluções cerebrais. Havia poucas infecções, pois usavam ervas anti-sépticas. A anestesia usada não é conhecida, mas é provável o uso da coca. Curas e recuperação eram obtidas em cerca de 70% dos casos.


Não se chegou a um acordo para determinar que planta seria usada para produzir a anestesia geral, requerida para preparar um paciente com o crânio fraturado, para receber a intervenção de um qampi-camayoq, portanto, não tentarei descrever nenhuma das possíveis plantas. No entanto, devido a ser a folha mais sagrada dos Incas, a coca, cujo nome botânico é erythroxylum coca, cultivada nas cálidas yungas e nas partes inferiores dos Andes orientais, pode, sim, ter sido a escolhida, por tratar-se de uma planta em cujas folhas há um alcalóide, conhecido, como mehtyl-benzil-ecogine. Houve um tempo em que foi usado como anestésico local e, ainda, em 1900, era considerado um maravilhoso tônico para os nervos. O vinho da coca desfrutou de muito apreço; Sigmund Freud foi um inveterado consumidor
De folhas lustrosas, que têm certa semelhança com as do chá, essas folhas são cortadas, quatro vezes em quatorze meses, e postas, cuidadosamente, para secar ao sol, sendo depois transferidas para a sombra, a fim de reter a cor verde.No entanto, isso seria mera especulação; apesar do sagrado papel da coca no Império Inca, acho que seria muito difìcil algo que provasse isso.


A medicina pré-colombiana estava ligada à religião (algumas doenças eram atribuídas aos deuses, assim como o seu tratamento), à magia (acreditavam que algumas doenças eram provocadas por feiticeiros) e à ciência (conheciam as propriedades curativas das plantas e de alguns minerais). Era, também, praticada pelos curandeiros, que pertenciam à casta dos sacerdotes. Os pais ensinavam a profissão a seus filhos e esses herdavam o cargo. O médico desfrutava de grande consideração em toda a sociedade pré-colombiana.
Os incas fizeram várias descobertas farmacológicas: usavam o quinino no tratamento da malária. As folhas de coca eram usadas, de modo geral, como analgésico e para
minorar a fome, embora os mensageiros chasqui (homens que corriam para levar mensagens por todo o império Inca) as usassem para obter energia extra.


Felipe Guaman Poma de Ayala, mais conhecido como Huaman Poma, que nasceu em 1550, escreveu um manuscrito, com informações completas sobre a prática da medicina, durante a civilização inca; o manuscrito original foi mantido na Biblioteca Real da Dinamarca desde 1660, só vindo a público em 1908, quando foi descoberto pelo estudioso alemão Richard Pietschmann.


Segundo o manuscrito, os Incas acreditam que todas as doenças eram provocadas pela ação de forças sobrenaturais. Além disso, as mentiras, pecados contra deuses ou quebrar leis incas seriam razões suficientes para ficar doente. Os remédios eram combinações de ervas e minerais, sempre acompanhado com orações e magias.


Os médicos incas eram capazes de tratar, com sucesso, doenças do sistema imunológico, aumentando a produção de glóbulos brancos ou leucócitos que, naturalmente, detinham o avanço de algumas doenças. Sabiam como tratar doenças urinárias e distúrbios respiratórios, como tosse ou bronquite; como restaurar o bom funcionamento do sistema gastrointestinal e problemas de desempenho sexual, entre outras.


A medicina inca tinha três tipos de médicos: o primeiro tipo chamado Watukk - seu trabalho era descobrir a origem da doença, através de um processo interpretativo da vida diária  da pessoa doente; O Watukk rastreava o somático global, o emocional e a fase da patologia do paciente - ele era, inteiramente, responsável pelo diagnóstico correto.


O Hanpeq é o segundo tipo de médico: ele era responsável em aplicar seu conhecimento médico sobre a doença, misturando e ligando as propriedades das ervas e minerais para curar o paciente, colocando especial atenção na correta aplicação do remédio e pós-tratamento. O Hanpeq é o que chamamos hoje de Shaman, que é um religioso, místico e médico de medicina natural.


O último tipo de médico é o Paqo: seu trabalho era, estritamente, focado no tratamento da alma, os incas acreditam que a alma estava localizada no coração. O paqo era responsável por sincronizar a saúde do espírito com o corpo, seu principal objetivo era prevenir e tratar as reações adversas dos remédios no corpo, para afetar, o menos possível, as condições de vida do paciente.


A medicina inca era tão complexa que classificava e tratava tristeza, melancolia, doenças mentais, aflições graves de comportamento, raiva, covardia, arrependimento, ansiedade, tristeza, medo patológico, demência, distúrbios psicóticos graves como a loucura, insanidade, idiotia e histeria, entre outras.


A escola médica inca podia durar de três até cinco anos, dependendo das habilidades do aluno. Era uma educação rigorosa no estudo das propriedades das ervas e dos minerais, como usá-los, as quantidades de remédios, diagnósticos de doenças. Eles ensinavam aos alunos como reconhecer as doenças conhecidas e como elas deveriam ser tratadas. Após o aluno concluir o curso de medicina, ele tinha de praticar muitos anos antes de ser considerado um médico.


Os médicos estavam em constante busca de novas ervas e minerais, procurando novas soluções e melhorar as antigas; A busca por respostas é a razão do seu grande desenvolvimento. O poder curativo da medicina inca era absolutamente extraordinário. Além do lado religioso e feitiços mágicos, que faziam parte do tratamento, os médicos ajudavam o paciente a acreditar que ele estava curado, fato que libera endorfina na corrente sanguínea, auxiliando a auto-cura do corpo.


Segundo Poma, a medicina inca tinha notáveis de 80 a 90 por cento de taxa de sobrevivência nos procedimentos de cirurgias de crânio. Incrível, considerando os materiais e os conhecimentos da medicina da época, as feridas dos procedimentos de costura eram, absolutamente, perfeitas, com poucos casos de infecção. Nós temos muito poucos manuscritos que descrevem como os médicos incas trabalhavam; é triste constatar que a maior parte deste conhecimento se perdeu no passado.


(1) VALDIVIA, P.O. (1986). Hampicamayoc. Medicina folklórica y su subestrato aborigen en el Perú. UNMSM. Lima
(2) Garcilaso de La Vega - Comentarios Reales de los Incas.