ALBORADA - SAYRI ÑAN

2.25.2012

HUASCAR E CHUQUI HUIPA - BODAS DE SONHO EM CUZCO (IMPÉRIO INCA)


               (Chuqui Huipa / Chuqui Llanto - desenho de Guaman Poma)


Vamos, mais uma vez, voltar no tempo, para testemunhar, em nossos sonhos e na  narrativa dos cronistas, o casamento de Huascar, o último Inca, e sua irmã Chuqui Huipa...

Huascar Inca, ao terminar o luto pela morte de seu pai, Huayna Capac, em Cuzco e em toda a terra, com grande sentimento, lágrimas e infinitos sinais de tristeza, assistiu, em pessoa, à parte final das exéquias, em Yucay, voltando, logo em seguida, para Cuzco.


Era hora de pensar na sucessão.

 

Com a permissão e os presságios favoráveis do Sacerdote do Sol e o consentimento dos demais nobres, irmãos, parentes e orelhões (1), Huascar decidiu casar-se com Chuqui Huipa (2), irmã sua por parte de pai e mãe, de acordo com a leis incaicas. Segundo o cronista Frei Martin de Murúa, chamaram Rahua Ocllo, esposa de Huayna Capac, mãe de Huascar e Chuqui Huipa, e todos juntos disseram a ela como haviam determinado que seu senhor Huascar tomasse por esposa a Chuqui Huipa, sua irmã.

Ao ouvir essas razões e vendo a vontade de seu filho, conselheiros e capitães, Rahua Ocllo, não se sabe a razão, recusou, negando o que ele lhe pedia, dizendo que não queria dar-lhe sua irmã por mulher.

"Huascar Inca teve grande raiva e com cólera e desprezo, levantando-se de onde estava sentado, disse à sua mãe palavras muito feias e desmedidas, tratando-a com desdém e desprezo, as quais, ouvidas por ela, insultada, levantou-se e foi para sua casa, deixando seu filho e conselheiros com grande fúria. "(Murúa)


Ao ver a atitude de Rahua Ocllo, os conselheiros de Huascar determinaram que, embora sua mãe não quisesse, ele deveria pedir sua irmã Chuqui Huipa, por esposa, a seu pai, o Sol, com sacrifícios e oferendas e outras coisas que a ele fizesse e oferecesse e que desse muitas e ricas dádivas ao corpo de Tupac Inca Yupanqui, seu avô e pai de Rahua Ocllo, sua mãe. Com esta determinação, Huascar, seguindo a ordem e o conselho dos seus,  primeiro dirigiu-se ao local onde se encontrava a múmia de Tupac Inca Yupanqui com grandes presentes. Adcayquy Atarimachi, Achache e Manco, parentes encarregados de cuidar e falar em nome de 
Tupac Inca Yupanqui, aceitaram em seu nome, e a concederam por esposa.

De lá, Huascar foi ao templo do Sol com grandes sacrifícios e ofertas, e pediu ao Sol, seu pai, Chuqui Huipa, sua irmã, como esposa legítima, e todos os sacerdotes do templo, juntos, em Seu nome, a deram por esposa, recebendo os presentes. Ele, querendo que o casamento fosse com o consentimento de Rahua Ocllo, sua mãe, para acalmá-la, que estava zangada, e agradá-la, deu-lhe ricos presentes de ouro, prata, roupas, servos e, solenemente, mais uma vez, todos os sacerdotes e irmãos de Huascar e os conselheiros foram até ela e juraram Chuqui Huipa por sua esposa legítima.

Houve novas festas, com danças e bailes, em Cuzco,  pelo juramento que fora reiterado, e ordenou-se que, durante todo o mês, fossem acesas luminárias em todas as torres e casas da cidade e que tocassem todos os gêneros de música das nações que alí estavam e, como ordenado, cumpriu-se.

Depois que o Sol (Inti), a múmia de Tupac Inca Yupanqui e Rahua Ocllo concederam Chuqui Huipa como esposa a Huascar, acordou-se que se efetuasse o casamento. Para maior majestade e grandeza, e maior ostentação, concordou-se que o Sol e a múmia de Tupac Inca Yupanqui fossem ao casamento e que estivessem, alí, representando a pessoa de Huayna Capac, pai da noiva, pois eles a haviam dado por esposa, em seu nome, e que Huascar saísse, com a imagem do trovão para encontrá-los.

Para maior celebração, ordenaram que a casa de Tupac Inca Yupanqui e a de Huayna Capac fossem cobertas de adornos de ouro e prata, e, assim, quatro torres foram cobertas e as paredes foram todas revestidas de fina guarnição. Aqueles que ocupavam o lugar de Tupac Inca Yupanqui e Huayna Capac e os sacerdotes do Sol, mandaram que a casa de Huascar e a da noiva se revestissem de adornos de ouro e rica guarnição, e todas as casas dos Incas mortos tivessem seus telhados cobertos de penas e as paredes de fina guarnição e as torres da praça se adornassem da mesma maneira e nelas, de dia e de noite, enquanto durassem as festas e regozijos, houvesse muita música, canções e danças.

Cuzco brilhava ao sol com o seu ouro e prata e, à noite, suas torres ostentavam as luminárias; muralhas de pedra em miríades de estrelas como se o céu noturno baixasse à terra, as chamas das lâmpadas crepitando a felicidade do Inca e sua noiva...


No dia do casamento, Huascar saiu de sua casa acompanhado da imagem do Sol, a múmia de Tupac Inca Yupanqui, seu avô, e a de Huayna Capac, seu pai, todos os sacerdotes, irmãos, parentes, conselheiros, orelhões e os chefes de seu exército e uma multidão de pessoas. Chegaram à casa de Rahua Ocllo, que estava ricamente revestida e, ali, receberam e entregaram Chuqui Huipa a Huascar, com toda a solenidade possível e todas as cerimônias que, entre eles, costumavam realizar em tais casamentos.

"Estiveram ali desde a manhã até a hora de vésperas e depois a pegaram para levar à casa de seu marido, Huascar, com muita música e cânticos. Por onde ela fosse, com seu marido, todo o caminho estava repleto de ouro e prata em pó, infinita "chaquira" (3) e plumagens, algo nunca antes visto em festas e casamentos de qualquer monarca do mundo desde o primeiro homem, até agora, pelo menos, pois não está escrito em qualquer autor, nem o que diremos mais tarde. Foram desde Casana até Marucancha, que eram as casas e residências de Huascar Ynga, e tudo o que daquele dia ficou até a noite se consumiu em bailes, cânticos, danças e regozijos. No dia seguinte, por mais autoridade e grandeza, vieram todas as nações que estavam no Cuzco para fazer festas a sua senhora e duraram mais de um mês. "(Murúa)

Huascar Inca queria celebrar seu casamento de modo que fosse lembrado para sempre. Então, mandou fazer, de ouro e prata, todos os tipos de milho existentes e todas as variedades de ervas que eles comiam. Também fizeram todos tipos de pássaros, pombos, garças, papagaios, falcões, tordos, águias, gaviões, condores, e muitos tipos de peixes do mar e de água doce. Lenha, inteira e rachada, e toda a diversidade de animais terrestres que havia no Tahuantinsuyo, foram feitos de ouro e prata e plumagens. Comida feita de ouro e prata era servida nas mesas,
 a todos os que se encontravam nas festas, pelos servos de Huascar, como lembranças do casamento, como se fosse comida de verdade ou se tivessem essa finalidade;  e todos os cântaros, arcas pequenas, copos e demais vasilhas eram de ouro e prata.

Mandaram trazer um número infinito de animais vivos, assim como ursos, pumas, gatos selvagens, macacos, veados, vicunhas, lhamas, em trajes de cores diferentes, feitos de propósito para fazer parecer que haviam nascido com eles e que haviam sido domesticados para esse efeito.

"Nem como eu disse acima, nenhum senhor ou príncipe do mundo, pois nem mesmo em invenções, majestade e aparato tenha havido muitas que a tenham excedido, nenhuma de tal abundância de ouro ou infinidade de prata que, como se fossem iguarias comestíveis se oferecíam aos convidados. "(Murúa)

Algum tempo depois, uma embaixada de seu irmão Atahualpa foi recebida por Huascar Inca. Como isso aconteceu em meio aos prazeres do sucesso, ele ficou muito satisfeito com ela, recebendo os mensageiros de seu irmão com honra, concedendo-lhes favores. Estes mensageiros trouxeram muitos presentes e ricas dádivas para Rahua Ocllo e para Chuqui Huipa, que os receberam muito bem, o que, sabido depois por Huascar, fez despertar em seu coração a suspeita, certamente causada por ciúmes...
Porque Atahualpa, e só ele, não foi a Cuzco para o funeral de seu pai, Huayna Capac, nem ao menos para o casamento de seu meio-irmão Huascar...

Gaman Poma, em Nueva Corónica y Buen Gobierno (1615) (Nova Crônica e Bom Governo), diz: "a décima segunda coia [rainha], Chuqui Llanto, coya: Dizem que era muito bonita e branquinha, que não tinha nenhuma mancha no corpo. E no semblante e muito alegre e cantora, amiga de criar passarinhos. E não tinha coisa sua,... ...tinha sua lliclla [manta] azul clara e o do meio, verde escuro, suacxo [saia] verde e o de baixo de tocapu  [tecido de pano trabalhado]. Puramente boa e alegre, contentava a seu marido, ... "


"Foi Chuqui Huipa mulher de boa disposição e bonita, embora um pouco morena, que toda esta linhagem o foi sempre. Seus arreios (4) eram pomposos e soberbos quando ela saía de casa, íam em sua companhia número infinito de indios importantes e servos seus, e rodeada de muitas princesas (ñustas) bizarramente vestidas. As paredes do seu palácio eram pintadas de diferentes modos de pintura, porque era estranhamente aficcionada a isso, e os adornos e quadros eram de finíssimo Cumbi de diferentes figuras, as quais naquele tempo se fazia sutilíssimas."
(Fray Martín de Murua, Historia General del Peru, Libro I)


Por tudo o que aconteceu antes do casamento e pela grandeza de sua realização, só posso crer que os dois se amavam muito. Foi, sem dúvida, o dia mais feliz de suas vidas...
Em seu coração, de qualquer forma, ou, talvez, mesmo, com suas próprias mãos, Huascar Inca, solenemente, tenha calçado, com uma sandália, o pé direito da eleita de sua vida... (antiga tradição Inca)




Havia um provérbio incaico que dizia "casa-te com teu igual" (Varela, 1945).


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1) Os nobres foram chamados, pelos espanhóis, "orelhões", devido à impressão que tiveram de suas enormes orelhas muito aumentadas pelos grandes "brincos" que usavam. Eles eram Incas e, como funcionários do Império, ocupavam cargos de confiança, bem como de tudo o que se referia a segurança e exército.

(2) (Chuquillanto, Mama Huarcay, Mama Guarqui, Cori Illpay) - Chuqui é Aymara: significa "ouro" Cori é Quechua: significa o mesmo metal.

(3) chaquira
1.f. amer. Colar ou pulseira feita com miçangas, contas, conchas, etc., Utilizados como decoração.

(4) arreio
sm (de arrear) 1 Adorno, atavio, enfeite, ornamento.




Bibliografia

Fray Martín de Murúa, Historia General del Peru, Libro I.

Felipe Guaman Poma de Ayala, El Primer Nueva Corónica y Buen Gobierno.