ALBORADA - SAYRI ÑAN

1.24.2011

A MENTIROSA ESTÓRIA E O VERDADEIRO INCA. !!!!!



Detalhe central do mural da "historia del Qosqo"( por Juan Bravo), para o município de Cusco: a figura central é Pachacutec, como reconhecimento ao iniciador da expansão inca, a organização do Tahuantinsuyo e o legado que dura até hoje.




A Lenda do Amor Rebelde.


Um mínimo de conhecimento sobre o Povo Inca nos faz compreender que esta "estorieta" de amor jamais teria existido. Parece que é de um autor anônimo, eu ousaria dizer que deve ter sido inventada por um dos "Conquistadores" que, além de violentos, eram ignorantes e usaram isso como artifício para deteriorar a história de um povo que eles, além de destruir fisicamente, pretendiam destruir mentalmente, no sentido de escravizá-los, expondo sua cultura ao mundo de forma pejorativa.


Mais fácil é, para mim, acreditar na lenda do Mapinguay, um enorme e corpulento animal, de um só olho e com as patas traseiras de boi terminadas em garras. A única maneira de destruí-lo é cortando-lhe o olho. Para exemplificar o que digo, basta pensar na lenda do Chullachaqui, demônio da selva, criado, pelos padres espanhóis, para obrigar os incas a batizarem-se na igreja católica; ele aparece a todas as pessoas que não creem em Deus e que não estão batizadas.






Bem, desse modo, divirtam-se ao ler o conto de fadas que usarei para ilustrar, de forma invertida, o que foi uma Civilização que pautava pelo cumprimento do dever de cada um para que os direitos de todos pudessem existir.




Ollantay: Rebelião por Amor.


Conta-se que o capitão Ollanta (ou Ollantay) tenha se apaixonado por Cusi-Coyllur, filha do Inca Pachacutec. Ao pedir a mão da princesa e ter seu pedido negado, revoltou-se, trancando-se em uma fortaleza. No entando, desse amor, a princesa Cusi-Coyllur dá à luz uma filha e o Inca Pachacutec morre de indignação e vergonha.


O príncipe herdeiro, então, vinga-se, sitiando Ollanta e encerrando sua irmã em uma prisão. Depois de muitos anos, quando o Inca, finalmente, consegue a rendição da fortaleza, Hima-Sumac, filha do capitão e da princesa, intercede pelos dois, obtendo perdão para ele e a libertação da mãe.




Não que um inca não pudesse apaixonar-se ou que não estivesse, enquanto ser humano, sujeito a isso. Mas, como disse, anteriormente, a estrutura do Tahuantinsuyo era uma verdadeira "máquina", com perfeitos encaixes, que não davam margem a atos de tal monta. Em primeiro lugar, havia um respeito muito grande pela sociedade como um todo - ainda que ela fosse uma princesa, ninguém colocaria o Império em perigo por amor; a menos que ele não fosse inca, o que não é o caso.


Todos no Tahuantinsuyo sabiam qual era o seu lugar e o ocupava com propriedade, era isso que garantia, sem ser preciso a força das armas, o funcionamento perfeito da "máquina", e o que proporcionava vida em abundância, prosperidade e fartura para todos.


Também, nenhum Inca, muito menos Pachacutec, iria morrer de indignação ou vergonha. Antes, uma outra solução prática, qualquer, teria sido aplicada com referência ao tal capitão.


Não se teria perdido tantos anos, nem se teria investido tanto, para sitiar uma fortaleza inútil, que não traria benefícios ao Império, nem acrescentaria nada a ele. Um Inca tinha suas responsabilidades, tinha também regras a seguir, não tomava decisões que não levassem a um bem comum - para isso contava com as Panacas, famílias nobres tradicionais que o circundavam, mesmo a sua prória Panaca, e todas, ainda, teriam de ouvir suas múmias ancestrais para tomar decisões. Isso era uma prática diária no Tahuantinsuyo.


E, depois de tudo isso, dizer que a filha dos dois teria conseguido obter o perdão seria ultrapassar a loucura em si mesma. Viver no Tahuantinsuyo era uma dádiva, muitos povos, quando conquistados, por vezes sem a força de armas, mesmo, aceitavam fazer parte dele, pois sabiam que isso era garantia de fartas colheitas e uma vida cheia de benefícios: estes, eram iguais para todos - as crianças, ao nascer, recebiam um "topo" de terra, o que lhes garantiria o sustento através da vida; os jovens, ao casar, recebiam ajuda para construir sua casa - ninguém ficava ao relento. Quando alguém morria, o "topo" voltava para o Estado para ser doado a outro recém-nascido.


Para finalizar, trata-se de Pachacutec (Pachakutiq). Nada mais, nada menos do que o iniciador do Tahuantinsuyo. Sua figura representa o início de toda uma época de transição e reestruturação da sociedade inca, uma etapa de mudanças que continuaria,depois de sua morte, em 1471, com seu filho, Tupac Yupanqui e seu neto, Huayna Capac. Foi ele quem, realmente, transformou o Tahuantinsuyo em um Império.


Sua visão de Estadista e guerreiro conquistou muitas etnias e estados, expandindo seus domínios, sendo considerado um líder excepcional. Muitos hinos e épicos seriam cantados e contados sobre ele, como tributos a seus feitos.






Pachacutec, "o que muda o rumo da terra"




"...y los tales señores caciques se fueron de allí derechos donde Viracocha Inca estaba y le dijeron cómo Inca Yupanqui los enviaba allí a que viesen en qué era servido, que ellos le sirviesen; y como Virachoca Inca los viese delante de sí y tan gran multitud de señores y de tanto poder, holgose mucho de ello (...). Después de repartirles vasos de chicha y porciones de coca, levantose en pie Viracocha Inca y considerando que pues su hijo le enviaba aquellos señores y ellos tanto le amaban y le querían por señor, que era justo que él asimismo en ello les animase. Les hizo cierta oración, por la cual él de su parte les agradecía lo que por él y por su hijo habían hecho, y que ya sabían (...) que él hasta allí había sido señor del Cusco, y que se había salido de él por causas que para ello le movieron; y que de allí en adelante Inca Yupanqui, su hijo, había de ser Señor en la ciudad del Cusco".


Tomado de "Suma y narración de los Incas", cronista Juan de Betanzos.




Ainda quando não havia sido designado como sucessor, por seu pai, Wiracocha Inca, enquanto este e seu filho Inca Urco, saíam da Capital, diante da iminência de um ataque mortal e sob terrível ameaça. dos Chancas, tomou a si a tarefa de proteger a cidade e a vitória sobre estes fez com que Wiracocha o reconhecesse como sucessor em 1438.






Implantou o sistema de mitmakuna, ou mitimaes - traslados- em todo o Tahuantinsuyo: eram grupos de pessoas enviadas pelo Estado, a qualquer ponto conquistado pelo Inca, a fim de realizar tarefas específicas de coesão. Colonizavam, ensinavam as técnicas e modos de produção cusquenhos, ou seja, da capital Cusco, ensinavam leis e costumes, divulgavam a religião dos incas. Também controlavam as populações recém incorporadas ao Tahuantinsuyo, produzindo os elementos básicos que cobrissem suas necessidades, reproduzindo traços culturais para uni-los ao todo.


Com o aumento do Império, aumentou também a demanda de alimentos, moradias e necessidades básicas, pelo que Pachacutec investiu em uma série de obras de construção, como a formação de novos bairros , novas praças, etc, e também, agrícolas, intensificando a produção, graças à criação de canais, para melhor distribuição de água, bem como todo um novo sistema de armazenamento e a construção dos andenes (terraços para plantio). Remanejou áreas, ao redor de Cusco, para que fossem utilizadas como sementeiras, relocando seus ocupantes em outros lugares, igualmente férteis.


Reedificou o Templo do Sol, tranformando-o, de um humilde lugar, de culto so sol a um suntuoso templo que passou a ser conhecido como Qoricancha (Templo de Ouro).


Foi quem organizou o Império em quatro regiôes, ou suyos (Tawantinsuyo - as quatro regiões), tendo como centro a cidade de Cusco (umbigo, ou centro, do mundo): a leste, Antisuyo, a oeste Contisuyo, ao norte o Chinchaysuyo e, ao sul, o Collasuyo.






Diversas crônicas afirman que foi tambén um grande administrador, planificador, filósofo, observador da psicología humana e carismático general. Juan Díez de Betanzos em sua "Suma y Narración de los Incas" (1551) diz que Pachacutec foi um jovem íntegro, "muy virtuoso, muy amigo de hacer el bien a los pobres" (muito virtuoso, muito amigo em fazer o bem aos pobres).



              (Monumento a Pachacutec em Aguas Calientes, perto de Machu Picchu, no Perú)