ALBORADA - SAYRI ÑAN

1.16.2011

LIBERTADORES DA AMÉRICA - PELO SANGUE DERRAMADO




ABYA YALA é o nome que as nações da América escolheram, em 1992, para designar o continente, no lugar de “América” – uma homenagem a Américo Vespucio. A expressão "ABYA YALA" vem da língua dos kunas, povo natural do Panamá e Colômbia que, antes da chegada de Colombo, assim nomeava essas terras. As duas palavras significam TERRA EM SUA PLENA MATURIDADE ou, simplesmente, TERRA DO ESPLENDOR.


O líder boliviano aymara Takir Mamani propôs que todos os povos da América utilizassem a denominação "Abya Yala" em suas declarações oficiais, pois “aceitar os nomes estrangeiros em nossos povoados, nossas cidades e nosso continente equivale a subjugar nossa identidade à vontade de nossos invasores e seus herdeiros”.






Em 23 de dezembro de 1780, Tupac Amaru II faz um apelo definitivo ao povo do Sol, ou ao que restara dele, pedindo que todos, naquele momento, lutassem como irmãos, unidos contra os espanhóis.


A partir desse momento, o movimento começou a atingir grande parte da população. Amaru, durante todo o ano de 1781, conquista o apoio em várias cidades, como Chuquisaca, Oruro, Tupiza, Puno, La Paz e Jujuy, juntando simpatizantes e armas, soldados e cavaleiros - em algumas cidades a população já exaltava Amaru como o novo Rei Inca, o que causava um desconforto entre as elites, que passaram a ver Amaru como ameaça.
Amaru sofreu  dura derrota frente aos 17 mil homens, fortemente armados, e comandados por José Antonio de Areche e José del Valle, entre os dias 5 e 6 de abril de 1781.
A luta de Tupac Amaru II, assim como a luta do lendário inca, Tupac Amaru, que desafiara a dominação dos primeiros espanhóis, culminou com seu martírio, mas não foi em vão. Movimentos de libertação sempre aconteceram e, nos anos que se seguiram, Bolívar, San Martin e tantos outros percorreram a estrada sacrificial pela América livre de qualquer dominação.
Após o domínio espanhol o que se seguiu foi opressão inominável, escravidão descabida e, pouco antes do nascimento de Tupac Amaru II, o povo andino fora "elevado" à categoria de ser humano, mas continuava condenado aos trabalhos forçados e à escravidão econômica. Os impostos eram cobrados de forma que só poderiam ser pagos através do duro trabalho nos campos, sob o jugo de seus senhores, ou com os trabalhos nas minas, que os levava à morte certa, ou em casas de produção têxtil. Impostos a 100% ou mais, que mantinham as pessoas, eternamente, endividadas  e seus senhores ricos.


A Igreja Católica, submetendo-os através da estrangeira religião de Jesus Cristo, com ameaças de tortura e morte, também enriquecia a partir da exploração do povo inca. Além de forçá-los a trabalhar em "projectos públicos", realizava coletas forçadas para os dias santos e, mesmo, para ir à igreja. O medo da acusação de ser anticristão ou o horror da eternidade de agonia no fogo do inferno os mantinha sob o chicote - mais um terror que a possibilidade de morte e tortura forjava na realidade de uma "América" vilipendiada.
José Gabriel Condorcanqui nasceu  mestiço, e o sangue espanhol o colocou diante do confronto da riqueza e das oportunidades que isso implicava. Pelo lado de sua mãe, era um descendente direto de Túpac Amaru, conhecido líder da fase final de resistência Inca que, por sua vez, era filho de Manco Inca, filho de Huayna Cápac e meio-irmão de Atahualpa e Huáscar .


Recebeu uma educação na igreja jesuíta de São Francisco de Borja, casando-se com uma mulher afro-indígena, em 1760, antes de herdar a autoridade, sobre Tungasuca e Pampamarca, de seu irmão mais velho; respondia, naturalmente, perante o governador espanhol.
Identificado de forma significativa com a sua herança inca, José Gabriel não era cego ao sofrimento de seu povo. Buscava, através de sua posição de relativo poder, um tratamento melhor para todos. Usava de tudo o que possuía para aliviar o sofrimento, generalizado, da escravidão econômica.
Seus apelos por um tratamento mais humano foram, no máximo, ignorados e, no mínimo, ridicularizados. Dentro dele crescia um mundo de amargura, raiva e impotência...
Então, ao ler o famoso livro do, também, mestiço Garcilaso de la Vega que, há quase duzentos anos escrevera um relato da história Inca, retratando a cultura de uma forma lúcida e que, por medo de uma revolta, havia sido proibido pelos espanhóis, deixou renascer, dentro de si mesmo, o espírito Inca adormecido pela força das circunstâncias...
Seu ódio por seus opressores cresceu, cada vez mais forte,  e ele decidiu organizar uma rebelião.
Começou por se recusar a realizar suas responsabilidades de cobrança de dívidas aos que estavam sob sua autoridade. Foi, imediatamente, ameaçado de morte pelo governador espanhol, ao qual estava submetido, Antonio de Arriaga.
Nesse momento, concorda em participar de um banquete, com o governador, oferecido por um sacerdote que ambos conheciam. Arriaga foi embora tarde, naquela noite, e estava bêbado. José Gabriel o seguiu para fora, onde vários de seus partidários estavam esperando. Sequestraram-no e o levaram para um lugar seguro, onde foi forçado a escrever cartas para dezenas de espanhóis, arranjando um encontro. Estes, ao acudir ao chamado do governador, foram cercados por José Gabriel e quatro mil rebeldes.


Em seguida, José Gabriel declara, publicamente, que estava mudando seu nome: agora ele era Túpac Amaru II, líder da resistência renovada...


Conta a lenda andina que o corpo enterrado do "Incarri", o último Inca*, arrastado e esquartejado pelos espanhóis e distribuído em toda a América, foi reconstruído sob a terra.  Apenas é preciso que o povo Inca junte a cabeça ao corpo para que o Inca regresse para libertar, definitivamente, seu povo.
 
Conforme relatado por Baltasar de Ocampa e Gabriel Frade de Oviedo, Prior dos dominicanos em Cuzco, ambos testemunhas, o Sapa Inca (Tupac Amaru) levantou a mão para silenciar a multidão, e suas últimas palavras foram:
"Ccollanan ricuy Pachacamac hichascancuta yahuarniy auccacunac".


" Mãe Terra , testemunhe como os meus inimigos derramam meu sangue. "


*Na verdade, Tupac Amaru foi o último Inca de um pequeno Estado independente, que havia sido criado por alguns membros da família, em Vilcabamba , no relativamente inacessível Alto Amazonas a nordeste de Cusco. O fundador desse Estado, denominado Neo-Inca, foi Manco Inca Yupanqui (também conhecido como Manco Capac II) que, inicialmente, havia se aliado aos espanhóis e,então, liderado uma mal sucedida luta contra eles, antes de estabelecer-se em Vilcabamba, em 1540. Depois de um ataque espanhol em 1544, em que Manco Inca Yupanqui foi morto, seu filho Tupac Sayri assumiu o título de Sapa Inca (imperador, literalmente, "só Inca"), antes de aceitar a autoridade espanhola em 1558, indo para Cuzco, morrendo (talvez por veneno) em 1561, tendo sido sucedido por seu irmão Titu Cusi, que morreu em 1571. Túpac Amaru, um outro irmão dos dois imperadores anteriores, sucedeu-os, em Vilcabamba.