ALBORADA - SAYRI ÑAN

1.15.2011

COCA - A FOLHA SAGRADA DOS DEUSES


A coca, do quíchua kuka, é uma planta narcótica da família das Erythroxylesd, nativa dos Andes. O arbusto conhecido ipatu, pode atingir de 1 a 3 metros de altura. Uma casca esbranquiçada cobre toda a sua haste; as flores são pequenas e amarelas e o fruto vermelho. Existe ainda a espécie Erytroxylum novogranatensis que contém um menor teor de cocaína. Essa variedade da planta é hoje refinada e comercializada, legalmente diluída em refrigerantes, principalmente a Coca-Cola.




Em estado selvagem pode ser encontrada nos Andes até dois mil metros de altura.  Os Sacerdotes Incas do Sol mastigavam e queimavam folhas de coca em honra a divindades.
Durante o Impéio Inca (Tahuantinsuyo) seguiu-se essa prática, mas nessa época a folha de Coca estava restrita ao uso dos nobres, seus familiares e oficiais, que acreditavam que a Coca era um presente dos deuses. Com a expansão do império incaico, a utilização da folha de Coca propagou-se pelas terras conquistadas tendo papel inclusive de moeda entre as pessoas.




Conta a lenda que o iluminado sacerdote chamado Khana Chuyma, que vivia em uma ilha no lago Titicaca, era o guardião do tesouro do Deus Sol. Ao ver que os conquistadores espanhóis iriam dominá-lo o sacerdote jogou o tesouro no lago para evitar que fosse roubado. Capturado pelos espanhóis, Khana Chuyma resistiu às cruéis torturas sem dizer uma única palavra sobre a localização do tesouro e foi, finalmente, libertado para morrer.




Naquela mesma noite, em grande agonia, o sacerdote foi visitado pelo Deus Sol que, para recompensá-lo por seu enorme sacrifício, lhe concedeu algo que o ajudaria, bem como ao povo do Sol, a suportar a escravidão e a vida dura que os esperava: as folhas de coca. Estas, deveriam ser cultivadas com carinho e mascadas para que seu suco aliviasse seu sofrimento; quando se sentissem exaustos de seu destino, a planta lhes daria vitalidade. Em suas jornadas, através de terras altas, a coca aliviaria sua fome e frio, tornando a viagem mais tolerável; nas minas, onde seriam forçados a trabalhar, o terror e a escuridão dos túneis seria insuportável sem a ajuda desta planta.


Quando quiserem olhar para o futuro, uma mão cheia de folhas, jogadas ao vento, revelaria os mistérios do destino mas, enquanto essa planta significaria força, saúde e vida para o povo do Sol, ela seria maldição para os estrangeiros. Quando eles tentarem explorar suas virtudes, a coca irá destruí-los. O que para o povo do Sol servirá de alimento, para os invasores criará conflitos e trará destruição.




O alcalóide cocaína só foi isolado das folhas de coca por Niemann em 1860, que lhe deu o nome. No entanto, supõe-se que tenha sido Friedrich Gaedcke, que a isolou, pela primeira vez, em 1856.




Gradualmente, seu uso espalhou-se. Após visitas à America do Sul cientistas italianos levaram amostras da planta para o seu país e o químico Angelo Mariani desenvolveu, em 1863 o vinho Mariani, uma infusão alcoólica de folhas de coca (mais poderosa devido ao poder extrativo do etanol que as infusões de água ou chás usadas antes). O vinho Mariani era muito apreciado pelo Papa Leão XIII, que premiou Mariani com uma medalha.
A Coca Cola seria inventada em parte como tentativa de competição dos comerciantes americanos com o vinho Mariani importado da Itália. A Coca-Cola continuaria desde a sua invenção até 1929 a incluír cocaína nos seus ingredientes, e os seus efeitos foram sem dúvida determinantes do poder atractivo inicial da bebida.




A cocaína tornou-se popular entre as classes altas no fim do século XIX. Entre consumidores famosos do vinho Mariani contavam-se Ulysses Grant, o Papa Leão XIII, que até apareceu na publicidade do produto, e Frédéric Bartholdi (francês, criador da Estátua da liberdade).
A cocaína foi, nessa época, popularizada como tratamento para a toxico-depêndencia de morfina. Sigmund Freud, o médico criador da psicanálise, experimentou-a, em Viena, em pacientes, fascinado pelos seus efeitos psicotrópicos, chegando a publicar um livro Über Coca sobre as suas experiências. Contudo acabou por se desiludir com a dependência a que foram reduzidos vários dos seus amigos. Foi ele que a forneceu ao oftalmologista Carl Kölle que, em 1884, a usou, pela primeira vez, como anestésico local, aplicando gotas com cocaína nos olhos de pacientes antes de serem operados.


A popularidade da cocaína cresceu: em 1885 a companhia americana Park Davis vendia livremente cocaína em cigarros, pó ou liquido injectável, sob o lema de "substituir a comida; tornar os covardes corajosos, os silenciosos eloqüentes e os sofredores insensiveis à dor". O personagem de ficção Sherlock Holmes (de Arthur Conan Doyle) chega mesmo a injectar cocaina nas veias em um dos romances. Em 1909 Ernest Shackleton leva cocaína para a sua viagem à Antartica, assim como o Capitão Robert Scott.




A folha de coca contém 0,5% de um produto anestesiante chamado cocaína. A partir do século XIX, os cientistas conseguiram retirar a cocaína da coca. Em um primeiro momento, ela foi utilizada por suas propriedades anestésicas. Mas, a partir de 1914, a cocaína foi definida como droga perigosa e proibida. Nos anos 60, após a guerra do Vietnam, ressurgiu como uma droga popular. A demanda cresceu e a máfia da droga entrou em cena.


No entanto, a folha de coca, estigmatizada por ser a matéria-prima da cocaína, transformou-se em um ingrediente saudável na produção de pães, sorvetes, bombons e balas, além de sabonetes e pasta de dentes.
Assim nasceu a Coca Shop, em 2004, em Cuzco, por uma iniciativa de Christo Deneumostier e da italiana Emma Cucchi, fundadora da Associação Kuychiwasi (Casa do Arco Iris).
Deneumostier assegura que uma das soluções para o problema seria industrializar e comercializar a planta, aproveitando suas propriedades para a fabricação de produtos de qualidade, saudáveis e gostosos.
A folha de coca possui14 alcalóides, mas apenas um deles - o que serve para a fabricação da cocaína - foi popularizado no exterior via mercado negro.
Os 13 restantes possuem proteínas, vitaminas, carboidratos, gorduras, fibras, calorias, cálcio, fósforo e ferro, entre outros componentes básicos para uma dieta equilibrada, segundo vários estudos científicos, entre os quais um elaborado pela Universidade de Harvard em 1975.
O pesquisador Fernando Cabises descobriu, segundo a revista Opción Ecológica, que a coca forma células musculares, previne úlcera e gastrite, é analgésica, afina o sangue, evita o mal estar causado pela altitude, melhora o funcionamento do fígado e da vesícula, é diurética, acelera a digestão, regula a melanina da pele e evita cáries.




Em seu primeiro ano de vida, a Coca Shop aumentou sua receita em 75% e, segundo seu proprietário, a chave para o sucesso está no fato de que seus empregados, entre eles alguns deficientes físicos, recebem formação a respeito do cultivo, da produção de derivados e da comercialização, e na opção de reinvestir todo o lucro. O resultado é uma vitrine de delícias tendo como base a folha de coca, como chocolate, sorvetes e grãos.


No entanto, a tarefa dos ecologistas, cientistas e analistas defensores da coca ainda está longe de ser concluída, já que a ONU mantém a planta em sua lista de produtos nocivos.














                                                                   

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