ALBORADA - SAYRI ÑAN

1.18.2011

ANDES - O GRITO DE DOR QUE NÃO SE CALA



Hoje a minha voz não terá som, minhas palavras serão como penas arrancadas de um condor que se arrebenta contra paredões de pedras incaicas... Ergo-me, chorando, cega de lágrimas e de chuva, quebrando-me ao vento que assobia tempestades... Deixo-me escorrer pela encosta, despencando minha fé desde as alturas, para um desfiladeiro que não tem fim, um abismo que os séculos escavaram, sem piedade, na revolta da "alma" andina - esfacelada em pedacinhos de arco-íris contra malévolas nuvens escuras e invasoras.
Quando estou assim, tão lúcida, fica difícil acreditar em qualquer coisa; fica impossível raciocinar com pensamentos "ocidentais" de verdade e justiça.
Tento expressar, com palavras estrangeiras, a dor que só poderia ser contada em quéchua... Que minhas palavras sejam armas dilacerando distâncias, alcançando o invasor em seus domínios, ferindo-o com dardos de consciência para que se arrependa...
Ao buscar entender a História, permaneço de joelhos diante do Conquistador e de seu "Deus de Salvação" e reflito - a dor foi transformando a si mesma; as feridas, cicatrizadas superficialmente, muitas vezes misturando-se ao sangue do estrangeiro. Recuso-me a falar, neste monólogo do silêncio, sobre como o Sol foi toldado em um eclipse eterno, espalhando sobre os Andes a desolação dos andenes vazios de cultivo...
Agora, meu grito esbarra em um paredão de tempo suspenso no espaço de lugar algum - quero voltar e não posso, quero morrer e a morte seria o alívio que o opressor proíbe. Então, deixo, por um único momento, o palco sangrento da minha "América" aviltada e subo, só um pouquinho, o degrau gélido da inconsciência, os pés descalços pisando, com delicadeza, aqui e ali, o lajedo da antiga trilha inca que cortava o Tahuantinsuyo como veia viva... Respiro o frescor de uma época feliz e organizada em que as flores adornavam os caminhos e as colheitas não deixavam esvaziarem-se os celeiros; um tempo em que, entre o sol a chuva, imperava a Bandeira do Arco-íris, desfraldada ao sopro das flautas que ainda nos chamam...


tanya marah
18/01/2011
de algum lugar do Antisuyo.




*Não posso deixar de registrar um trecho que li, atribuído ao último sobrevivente dos conquistadores originais do Império Inca, Don Mancio Serra de Leguisamo, que escreveu no preâmbulo de seu testamento, em Cuzco, no dia 18 de setembro de 1589:






"Encontramos os tais reinos em tão boa ordem e os ditos Incas os governavam com tal sabedoria que, através deles não havia nenhum ladrão, nenhum viciado, nenhuma adúltera, nem uma mulher má era admitida entre eles, nem havia pessoas imorais. Os homens tinham ocupações úteis e honestas. As terras, florestas, minas, pastagens, casas e toda sorte de produtos eram regulados e distribuídos de tal maneira que cada um conhecia sua propriedade sem que nenhuma outra pessoa se aproveitasse dela ou a ocupasse, nem que houvesse processos judiciais com relação a isso..."


...O motivo que me obriga a fazer esta afirmação é o desencargo da minha consciência, porque eu me acho culpado, pois destruímos, pelo nosso mau exemplo, as pessoas que tinham um governo que era apreciado por esses nativos. Eles estavam tão livres de cometer crimes ou excessos, tanto homens como mulheres, que o índio que tinha 100 mil pesos em ouro ou prata em sua casa, deixava-a aberta, apenas colocando um pequeno bastão contra a porta, como sinal de que o dono estava fora. Com isso, segundo seu costume, ninguém podia entrar ou tirar qualquer coisa que estivesse lá. Quando viram que nós colocamos fechaduras e chaves em nossas portas, pensaram que era por medo deles, para que não pudessem nos matar, mas não porque acreditavam que alguém iria roubar a propriedade de outro. Assim, quando eles descobriram que tínhamos ladrões entre nós, e homens que procuraram fazer suas filhas cometerem pecado, eles nos desprezaram ". (Markham 300)






Markham, Sir Clements, The Incas of Peru, Second Edition, John Murray, London, 1912.


texto em inglês:


In Cuzco on Sept. 18, 1589, the last survivor of the original conquerors of Peru, Don Mancio Serra de Leguisamo, wrote in the preamble of his will the following in parts:








"[W]e found these kingdoms in such good order, and the said Incas governed them in such wise that throughout them there was not a thief, nor a vicious man, nor an adulteress, nor was a bad woman admitted among them, nor were there immoral people. The men had honest and useful occupations. The lands, forests, mines, pastures, houses and all kinds of products were regulated and distributed in such sort that each one knew his property without any other person seizing it or occupying it, nor were there law suits respecting it...


"...the motive which obliges me to make this statement is the discharge of my conscience, as I find myself guilty. For we have destroyed by our evil example, the people who had such a government as was enjoyed by these natives. They were so free from the committal of crimes or excesses, as well men as women, that the Indian who had 100,000 pesos worth of gold or silver in his house, left it open merely placing a small stick against the door, as a sign that its master was out. With that, according to their custom, no one could enter or take anything that was there. When they saw that we put locks and keys on our doors, they supposed that it was from fear of them, that they might not kill us, but not because they believed that anyone would steal the property of another. So that when they found that we had thieves among us, and men who sought to make their daughters commit sin, they despised us." (Markham 300)